Se todos os Médiuns adotassem Allan Kardec, não haveria tantos absurdos!

O texto em comento principia com duas “denúncias”, extremamente oportunas: a primeira, de que a imprensa sistematicamente se recusa a abrir espaço para a análise criteriosa dos livros (adjetivados de espíritas) publicados; e, a segunda, de que os próprios autores (de mão própria ou por meio da psicografia, aduzimos nós) se sentiriam “incomodados” e rejeitariam tal análise.
  No primeiro segmento, o da imprensa, temos visto alguns releases de obras – sejam elas produzidas pelos encarnados ou em parceria com guias espirituais que as assinam – quase todos “informativos”, descritivos do conteúdo (ainda que, superficialmente), e, também, com menção à trajetória de trabalho do escritor ou coautor (quando encarnado) e remissão ao conteúdo da obra do Espírito comunicante. Nenhuma crítica mais severa e pontual, quanto menos o comparativo de suas ideias com os fundamentos espíritas contidos na Codificação. Daí sua, quase permanente, inutilidade prática. Trata-se de mera propaganda, para catapultar a venda dos exemplares, favorecendo seja seus editores sejam as distribuidoras e livrarias. Nada, nadinha mesmo, em prol da “grande massa” de leitores, que acabam “consumindo” muitos “gatos por lebre”, ou, como dissemos mais aqui ao sul, “carne de pescoço com cheiro de picanha ou filé mignon”.
  No segundo, o da autoria, ideal seria que, além da submissão da obra (mediúnica ou não) ao crivo da análise de pessoas isentas e conhecedoras do assunto, sem qualquer intuito de “malhação” ou “caça às bruxas”, em contatos que poderiam ser estabelecidos entre editora, autor e críticos – com, inclusive, a hipótese de, num primeiro momento, trabalhar-se com o anonimato destes últimos, divulgando-se a identidade posteriormente – pudéssemos, quem sabe, abrir espaço para eventos do tipo “pinga-fogo” entre o autor e os analistas, em que o público presente ou espectador (em reproduções pela internet, por exemplo) pudesse aprender um pouco mais, tanto acerca da técnica da análise – que possui como parâmetros os elementos contidos em O Livro dos Médiuns, os quais, inclusive, foram repisados no texto em comento, e estarão, resumidamente, sendo apresentados adiante – quanto em termos da teoria espírita e seus princípios, apresentados no conteúdo da obra a ser “sabatinada”).
  Tudo isto, no entanto, requer como pressupostos a vontade de realizar, o interesse das partes envolvidas, o tempo necessário à “maturação” de determinadas obras, a disposição em “serem criticado”, bases que requerem exercício e investimentos. Fica, aí, a ideia, sujeita inclusive à crítica de nossos leitores do Ombudsman (cellosc@floripa.com.br).
  Voltando ao texto publicado em “O Imortal”, como fundamentação da bela composição jornalística, o mesmo traz excertos de recomendações de Kardec (em específico três itens de O Livro dos Médiuns, 248, 266 e 329), em que, sucintamente, são apresentados os fundamentos de análise da produção espiritual – que, para nós, pode ser mediúnica ou não, como afirmamos no parágrafo anterior, embora, de maneira geral, o Codificador, na obra em epígrafe, se refira, expressamente, ao concurso do trabalho entre médiuns e Espíritos. Vamos a eles, em dez pontos:

  1) A obsessão – e sua filha dileta, a fascinação – é um dos maiores tropeços da mediunidade, em face da condição e da perspectiva do ilusionismo provocado pelos Espíritos nos médiuns;

  2) Isolados e “cheios de si”, os médiuns se tornam cegos, aceitando “de bom grado” tudo o que os Espíritos lhe sugerem, e ficando restritos ao círculo da informações que interessam ao(s) Espírito(s) que lhe utilizam como instrumento;

  3) A análise – isenta – feita por pessoas desinteressadas e benevolentes, porquanto imparciais, sobre as comunicações obtidas é instrumento para “abrir os olhos” do médium, bem como desmentem o caráter do Espírito comunicante que, mentiroso e desmascarado, se desanima e se retira;

  4) A irritação do médium, no tocante a análise de terceiros e sua repulsão à critica caracterizam, declaradamente, o estado de subjugação dele ao(s) Espírito(s) que dele se utiliza(m), razão de ser de seu melindre. Confunde, ele, portanto, obra e criador, ou seja, encaram a crítica como pessoal, a sua individualidade endereçada, quando, na verdade, o objeto da análise é a produção mediúnica (em outras palavras, “não é seu o que lhe sai da boca, ou do lápis”);

  5) Muitos médiuns não possuem o exato conhecimento “sobre todas as coisas”, razão pela qual podem se deslumbrar ante palavras retumbantes, linguagem pretensiosa e sofismas, razão pela qual é imperioso a ele recorrer a quem tenha maiores luzes sobre o assunto, especialistas de determinadas áreas ou estudiosos isentos (“quatro olhos veem melhor que dois”);

  6) O médium, como regra, deve solicitar o exame crítico de qualquer comunicação recebida por seu intermédio, caminho certo para se livrar da influência de Espíritos enganadores;

  7) Ao médium imperioso é analisar todos os gêneros de comunicações que receba, com o auxílio da opinião de terceiros, para as comparar;

  8) O julgamento da obra mediúnica tem como resultado (oportuno) a rejeição de tudo quanto afronte a lógica e o bom-senso, justamente as características principais do trabalho de Kardec (“não há comunicação má que resista a uma crítica rigorosa”);

  9) Os Bons Espíritos não se ofendem com a análise criteriosa das comunicações, já que eles mesmo a aconselham e porque não temem, em nada, o exame; e,

  10) Mesmo reconhecendo a natureza da relação que se firma entre encarnados e desencarnados, no intercâmbio mediúnico, sobre bases de confiabilidade legítima, em todas as situações, é inafastável “pesar e meditar, submeter ao cadinho da razão mais severa todas as comunicações recebidas e de não deixar de pedir as explicações necessárias a formar opinião segura, desde que um ponto pareça suspeito, duvidoso ou obscuro”.

  É de salientar, no exercício, também, da crítica que caracteriza o Projeto Ombudsman, que o editorial não contém muitas digressões de seu autor, de próprio punho, preferindo coletar trechos – ainda que bem ordenados e alinhados – da obra assinada pelo professor lionês. Em nosso parecer, talvez a inserção, aqui ou ali, de algum comentário preciso ou a indicação, ainda que mais genérica, da práxis vigente nas editoras espíritas e “espíritas” de nosso país, pudesse ser mais contundente e fomentar um maior debate, levando ao amadurecimento da própria imprensa neste sentido.
  Todavia, respeitamos a escolha do veículo e seus responsáveis, admitindo que a opção editorial deve ter ponderado que, a par das explicações de Kardec, pouco poderia ser acrescentado, cabendo-nos, em verdade, analisar e aplicar suas orientações.
  De nossa parte, à guisa de conclusão e de sugestão, admoestamos o leitor para o seguinte: qual seu comportamento em relação aos livros que lhe chegam às mãos, sobretudo quando assinados por “nomes e sobrenomes ilustres”, de autores que parecem ter e gozar, por sua identificação medianímica, de prestígio e respeitabilidade? O mesmo se dá em relação aos seus “autores” encarnados, os médiuns, muitos dos quais personalidades conhecidas e respeitadas no meio espiritista: sua assinatura é, por si só, a chancela de obras que contêm verdades, perfeitamente concordes ao edifício espírita? E, quando se trata de recomendar obras, vendê-las nas livrarias de nossas instituições e presentear amigos em datas específicas, estamos usando do “crivo” da análise embasada na sistemática proposta pelo Codificador? Meditemos…


Marcelo Henrique PereiraPublicado por Edson Rocha em Janeiro de 2012

10 thoughts on “Se todos os Médiuns adotassem Allan Kardec, não haveria tantos absurdos!

  1. Comentário de Suely Rodrigues Albuquerque em 6 janeiro 2012 às 20:37

    Isso é para todos pensar, pois realmente muitas obras deixam a desejar, o melhor é estudar as antigas, como as de Leon Denis, Camilo Flamarion, a própria Codificação (está sendo esquecida por muitos espiritas de ser estuda), enfim concordo com seu parágrafo final, é necessário refletir… e muito!

  2. Comentário de Carlos de Brito Imbassahy em 7 janeiro 2012 às 10:47

    O Marcelo é gente boa e prudente. Sua posição, tranquila e serena, merece todo respeito. Quanto a Chico Xavier, as obras não são dele, por isso, qualquer crítica que se queira fazer, deve-se dirigir à Entidade manifestante. Só quero relatar um fato do qual fui testemunha ocular. Meu pai, então Assessor de Imprensa da FEB, foi comigo à sede da mesma e lá, encontrando o Sr. Wantuil de Freitas, ele ponderou que a editora não podia mudar o título de uma obra sem permissão do autor, nem, tão pouco fazer as alterações que o sr. Wantuil tinha introduzido na obra do Chico publicada como “Brasil coração do mundo…” Nasceu uma terrível discussão entre meu pai e este sr. wantuil que culminou como afastamento do meu pai que nunca mais pisou na FEB. Os amigos do Chico chegaram a chamá-lo de “pusilânime” porque aceitara sem reclamar as tais alterações, mas o médium ponderou que um escândalo seria pior para a imagem da doutrina e o livro saiu como o presidente da FEB queria. Nunca mais Chico deu nenhuma obra para a FEB publicar e os dois que saíram após este foram obtidos de um original que Chico já houvera entregado lá para o próximo livro.
    Deste fato sou testemunha ocular porque estava lá, embora pequeno, acompanhando meu pai.

  3. Comentário de Silvio Oliveira em 7 janeiro 2012 às 10:52

    Tem fundamento as alegações do amigo Marcelo Henrique. Como todas as publicações de ordem geral, as publicações de cunho espiritas não fogem à regra da comercialização e devemos, sim, ter muito cuidado com o que lemos. Temos que usar da RAZÃO para assimilar os escritos e saber distinguir o que realmente é condizente com a codificação da Doutrina dos Espíritos feita por Kardec. Temos um universo de livros e autores e, é certo, muitas contradições, principalmente naquelas edições do tipo romances. Então temos que tomar cuidado, e o estudo sistemático da Doutrina, através dos pentateucos publicados por Kardec é necessário para que a gente não venha a acreditar numa dessas falsas verdades.

  4. Comentário de Cláudio Luciano Oliveira Lins em 7 janeiro 2012 às 13:15

    Pois é, ao ler o comentário do Sr. Carlos de Brito, fico pensando na postura equivocada da FEB no fato relatado… lamentável. Independentemente de quem seja o autor, a editora, todo material dito como espírita, deve passar pelo crivo kardequiano e, se não passar, ser deixado de molho.
    Infelizmente, médiuns, autores e editoras, ultimamente estão pensando nos lucros e não na divulgação da doutrina. Felizmente tal quadro não é generalizado, pois existem aqueles que seguem os princípios Espíritas, como ensinava a saudosa Yvonne Pereira

  5. Comentário de Claudio Tollin em 8 janeiro 2012 às 16:17

    A despeito de qualquer imagem “de boas intenções” que possa ficar ao leitor deste artigo, devemos lembrar de quanto ainda somos fascinados pelos ideais que nortearam a “Santa Inquisição” e pelos que ainda norteiam os que acreditam que os outros devam ser censurados.
    Meu Deus! Quando será que iremos parar de querer levar à fogueira os que pensam de forma diferente da nossa? Quantos Giordanos Brunos teremos que sacrificar por temor de suas ideias?
    O medo oculto de que a verdade não venha a prevalecer nos torna míopes.
    Acabamos por esquecer que continuamos a ser Espíritos, mesmo quando encarnados. Portanto nossa produção literária em todos os ramos do conhecimento pode ser classificada como oriunda de um ou mais Espíritos.
    Vamos então recriar a CENSURA para tudo que o Espírito humano produzir?
    Refiro-me à censura institucionalizada como propõe o artigo em sua primeira parte. Aliás conheço um bocado de pessoas que adoraria fazer parte da bancada dos críticos e censores. Donos da verdade, acham que eles é que têm que controlar o que possa estar disponível para os demais.
    O que o artigo está pretendendo defender chega a empalidecer o auto de fé em Barcelona.
    Sabemos que os inquisidores não poderiam deixar de reencarnar. Mas, fazer renascer a Inquisição nos tempos atuais é persistir no mesmo propósito e não evoluir. Os tempos são outros e eles necessitam acordar e aproveitar a encarnação para não reincidir nos mesmos equívocos.
    Creio que o autor gostaria de ter encerrado o artigo assim: Oremos!

    1. Comentário de Carlos de Brito Imbassahy em 8 janeiro 2012 às 20:38

      Meu querido Claudio: não são eles que pensam diferente… eu é que penso diferente deles, pois eles são a maioria. No dia em que a verdade absoluta for estabelecida, ninguém vai poder contestá-la.
      Quando se proclama uma dessas verdades, quem não contestar é tido como louco; por ex.: quem teria coragem de contestar a afirmativa de que a água é composta de dois átomos de H e um de O? Que é a Terra que gira em torno do Sol.

      1. Comentário de Claudio Tollin em 9 janeiro 2012 às 0:15

        Caro irmão Imbassahy, não se trata de quantificar quantos pensam de uma forma e quantos de outra quando me referi à dificuldade e falta de habilidade que temos em conviver com os que não pensam como nós. A lógica nos diz que neste mundo de expiação e de provas, onde ainda convivemos com classes de Espíritos diferentes, facilmente encontraremos diferenças entre nós.
        Se o Criador assim o desejou cabe-nos perguntar: Para que? Qual a finalidade em conviver com diferentes ordens de Espíritos?
        Seria Deus uma “cara gozador”, que adora brincadeira e acha engraçado nos “botar cabreiros” como disse Caetano Veloso?

        Abraço fraterno
        Claudio

    2. Comentário de Edson Rocha em 8 janeiro 2012 às 21:44

      Irmão Claudio infelizmente não entendi sua colocação, não pude perceber se o Irmão é contra, a favor ou muito pelo contrário!
      Qualquer médium, sem quaisquer condições de avaliação e inculto em relação à Codificação, poderia escrever um livro sem base e lançar no mercado com a classificação de livro Espírita. Não podemos avaliar se tem cabimento as informações contidas ali? Quanto estrago seria evitado, se pelo menos pudéssemos criticar dentro dos conceitos clássicos da Doutrina?
      Creio que deixar como está é sermos tolerantes ao ponto de estarmos conivente com os erros e os resultados advindo desta atitude e não seríamos cadidosos com os Irmãos que estão começando seus estudos.
      Para o Irmão pensar quero apresentar um conselho dado por São Luiz que está contido no Livro Evangelho Segundo o Espiritismo Cap. X
      Pergunta: Haverá casos em que convenha se desvende o mal de outrem?
      É muito delicada esta questão e, para resolvê-la, necessário se toma apelar para a caridade bem compreendida. Se as imperfeições de uma pessoa só a ela prejudicam, nenhuma utilidade haverá nunca em divulgá-la. Se, porém, podem acarretar prejuízo a terceiros, deve-se atender de preferência ao interesse do maior número. Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode constituir um dever, pois mais vale caia um homem, do que virem muitos a ser suas vítimas. Em tal caso, deve-se pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes. – São Luís. (Paris, 1860.)

      Grato
      Edson Rocha

      1. Comentário de Claudio Tollin em 8 janeiro 2012 às 23:54

        Irmão Edson.
        Quando li o artigo entendi que o mesmo propunha uma CENSURA prévia, por um grupo de críticos, do conteúdo de uma obra. Relendo-o percebi meu equívoco pois a proposta feita refere-se à crítica a uma obra já publicada.
        Portanto peço desculpas ao autor do artigo por este terrível erro. Por ser contrário a qualquer CENSURA fiquei indignado e não analisei detidamente o que ele estava propondo.
        Mas de qualquer forma, não tenho percebido que os veículos existentes não nos permitem espaço para a crítica.
        Sites como este, jornais, revistas, entrevistas, artigos, cartas, etc., são instrumentos que podemos usar para dar nossa opinião sobre qualquer obra. Também convidar o autor para debatê-la, formar grupos de estudos, participar dos eventos nos quais o autor fala da sua obra, também são outras formas de se estudar e analisar o conteúdo da mesma.
        Analisar qualquer ideia exposta à nossa razão é sempre essencial e necessário sem nenhuma sombra de dúvida.
        É o que aqui costumamos fazer.

        Claudio

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