Roma entre Nós

Quase todos os imperadores romanos tinham como preocupação a expansão do império romano e para isto, muitos povos foram conquistados, humilhados, escravizados e assassinados. O poder da frase “todos os caminhos levam a Roma”, compreende-se até hoje, se você viajar do Norte da África ao Norte da Inglaterra, e da Espanha à Síria. Não me refiro apenas às inúmeras estradas que foram construídas a custo de muitos esforços, para levarem os viajantes ou exércitos de volta para Roma, mas a presença das grandes construções romanas em cada região da Europa, em algumas do Oriente e até do continente africano, bem como em todos os lugares que visitamos e que temos pesquisado. Roma ainda está lá!

  Com a presença romana, entende-se os romanos e os conquistados, bem como o que Roma desejava com os estrangeiros. Em verdade, Roma não tinha tolerância com a cultura, com os costumes dos dominados. O seu desejo era conquistar, estabelecer uma prefeitura romana local, deslocar uma legião para impor a “Pax Romana” e ao mesmo tempo, cobrar o maior número de impostos que deveria manter e expandir as conquistas romanas. Em algumas localidades, o Governador poderia até permitir aos “obedientes”, o culto da religião ou acabavam por fundi-la à pagã dos romanos.
  Na Judeia, Roma, respeitou até certo ponto o culto, as oferendas no Templo de Jerusalém, contanto que, se colocasse nas paredes frontais a imagem de César, o Augusto, o que é claro causou uma grande confusão entre os adoradores de Jeová. A liberdade de culto permitia que o povo encontrasse na religião, o que Karl Max viria séculos mais tarde, a chamar de “ópio do povo”, pois a manutenção da fé ajudava na resignação, na obediência, e na “paz”. Neste sentido, Roma ainda hoje, em pleno século XXI, está presente nas religiões dominadoras. E quanto maior é a crise moral, econômica e política em países religiosos e místicos como o Brasil, mais igrejas e templos são abertos. Roma ainda está aqui!
  Está aqui, também, pelo culto à beleza, à ilusória juventude, e ao corpo que estão como ideia fixa em academias, salões de beleza, em aplicações de Botox, uma esticadinha aqui e outra ali. Enfileiram-se também entre nós, os adoradores do poder, relembrando as tricas, futricas e corrupções senatoriais. De outro lado, as legiões que massacravam, ainda estão fardadas entre nós e fazem suas vítimas pelo abuso de poder e da violência. As bacanais que motivavam as orgias e seus fartos banquetes produziram não só os sexólatras, mas os primeiros bulímicos que provocavam o vômito para continuarem o deleite nos jantares.
  Em pesquisas que fizemos em Cesareia Marítima, constatamos a presença de banheiros públicos usados à época do governo de Herodes, o Grande, onde serviram, também, como vomitórios para que os convidados não enjoassem da festa logo na primeira noite.
  A cristianização que sofremos com direito à comemoração do Natal e tudo mais, no dia 25 de dezembro, trata-se de um presente cultural religioso romano. Não é apenas a data de nascimento do deus pagão, Mitra, mas significava o fim do inverno e o renascimento do sol. Ainda em festas populares, está o carnaval romano, que começou na premiação de um gladiador que ao término de um torneio, ao sair vitorioso, teve direito a desfrutar de dezenas de virgens, praticando sexo em plena luz do dia para o prazer de uma sociedade que em atos festivos observava e repetia o coito.
  Todavia, Roma não nos trouxe apenas queixas, dores ou apontamentos infelizes. Roma nos deu um maior acesso ao conhecimento sobre a Grécia, sobre o Egito. Roma nos aproximou da poesia, da Filosofia, de um senso crítico racionalista, do Direito, da Arquitetura, do que é ideal, e do gosto apurado pelas artes. Roma nos mostrou que é possível sonhar, contanto que o nosso sonho não se torne o pesadelo do outro. Com suas conquistas houve uma maior interação entre os povos e o que antes era exclusivo de um grupo, tornou-se parte de outro e foi até aperfeiçoado.
  Roma ainda vive! E ao estudá-la compreendemos o porquê da frase que todos os caminhos nos levam a ela. Os caminhos não foram apenas às estradas, mas tudo o que Roma fez para tornar-se adorada, temida e inesquecível. Todavia, não são mais as estradas que existem, mas toda a herança de Roma que aguarda ser conhecida e aprofundada, e que muito dela sempre esteve entre os estrangeiros não mais dominados e se encontra, também, em nós.

Liszt Rangel

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Publicado por Franciene Gonçalves

Abril de 2013

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