O Partido Espírita

O Partido Espírita
Escreve: Eugenio Lara
Em: Agosto de 2000 – São Vicente-SP

  Toda ideia nova, quando surge, sempre enfrenta contraditores, gratuitos ou não, interessados em destruir no nascedouro aquilo que, supõem, possa interferir em seus interesses. Com o Espiritismo não foi diferente.
  Allan Kardec teve de enfrentar muitos seguidores mal-intencionados e os perseguidores de plantão. Teve problemas com a Igreja, com a corporação médica, com a imprensa francesa. A Igreja veio com a novidade de que o Espiritismo era uma religião e, portanto, viria disputar adeptos, fazer prosélitos e dividir o rebanho cristão. Os médicos chamavam o Espiritismo de “fábrica de loucos” e muitos deles imaginavam ser a nova doutrina nascente, uma questão de saúde pública. Kardec, que era médico, mas nunca exerceu a profissão, sabia com qual tipo de máfia estava lidando.
  Rejeitou tanto a invenção da Igreja, representada pelo Abade Chesnel, como a pexa de “usina de loucos varridos”. Kardec não alimentava polêmicas, mas também não fugia de nenhuma.
  Já as polêmicas que travou com a imprensa da época, notadamente contra os artigos de materialistas e jornalistas levianos e comprometidos, estão bem descritas na Revista Espírita, um depositário de fatos sobre a história do Espiritismo.
  Uma das controvérsias mais interessantes foi à acusação estampada em alguns jornais franceses de que estava surgindo na França mais um partido, o Partido Espírita (RE – julho/agosto de 1868).
  Kardec aceitou a tese e ridicularizou o temor de que o novo partido pudesse se constituir numa grande força política. O caso foi parar no Senado e vários jornais publicaram a notícia, servindo ainda mais para despertar a curiosidade sobre o Espiritismo.
  Um partido de bobos foi o que alguns políticos declararam. Ora, mesmo os bobos têm o direito de constituírem um partido, considerou o fundador do Espiritismo, vendo neste fato mais uma alavanca para a divulgação da Doutrina. E foi o que aconteceu.
  Interessante mesmo foi a sua análise acerca do duplo sentido que a palavra partido abriga. Se de um lado tem o sentido de facção, de cisão, de luta e agressão, por outro, há o sentido de força física ou moral que tende a se contrabalançar com outras opiniões.
  Kardec rejeitou a primeira acepção, mas, aceitou a ideia de que o Espiritismo se constitui, não somente, numa “escola filosófica”, segundo sua própria expressão, mas também numa corrente de opinião sem perder a qualidade essencial de “doutrina FILOSÓFICA moralizadora, que constitui a sua glória e a sua força”
  E completa: “A palavra partido, aliás, não implica sempre a ideia de luta, de sentimentos hostis. Não se diz: o partido da paz? O partido das criaturas honestas? O Espiritismo já provou, e provará que pertence a esta categoria.”
  Nesse sentido, os espíritas constituem um partido, uma corrente de opinião que não pode ser ignorada, seja no recenseamento ou na análise estratégica de qualquer político que queira ser eleito. Constituímos uma força política, não no sentido partidário, mas em seu sentido mais abrangente, como força moral e ideológica.
  A Enciclopédia Britânica estima em cerca de 12 milhões o número de espíritas no mundo. Só no Brasil há cerca de 8 milhões de adeptos e 30 milhões de simpatizantes, segundo ampla matéria sobre o Espiritismo publicada na revista Veja (26/07).
  Todavia, temos de considerar que as correntes e facções são tão numerosas quanto as igrejas evangélicas. A cada dia surgem “missionários” com ideias exóticas e personalistas. Médiuns que se acham predestinados e criam invencionices, práticas esdrúxulas, tudo em nome do Espiritismo.
  Há momentos em que falar do pensamento kardecista é como pregar no deserto. Os poucos que dão ouvidos reagem com animosidade e intolerância.
  É preciso ter a consciência de que em meio a esse tremendo balaio de gatos que é o Espiritismo brasileiro e mundial, há espíritas que não compactuam com os rumos que o movimento espírita vem tomando desde o desencarne de Kardec, desde que a Doutrina apareceu por aqui no século passado, a partir de 1860.
  O projeto de um Espiritismo sem rótulos, verdadeiramente kardecista, sem os prejuízos que o religiosismo cristão vem causando na divulgação doutrinária é uma tarefa que exige uma tomada de consciência. Significa tomar partido, se constituir mesmo num partido, ainda que informal, mas naquele sentido que Kardec admitiu para o próprio movimento espírita. O de força moral, de ideias, sem cisão, sem animosidade, sem faccionismo, com abertura e tolerância para com aqueles que pensam e sentem o Espiritismo de forma diferenciada.

Artigo publicado originalmente no jornal de cultura espírita Abertura, em agosto de 2000.

http://viasantos.com/pense/arquivo/0025.html

10 thoughts on “O Partido Espírita

  1. Comentário de Magno Alves pereira em 29 setembro 2012 às 19:34

    A ideia do partido espírita é louvável, no entanto, grandes transformações ainda estão acontecendo. Ainda não é a hora de enfrentar algo tão delicado como a política. Devemos ajudar na evolução social com a caridade como bandeira, mas para ganhar corações para verdade, não para ganhar votos.

  2. Comentário de Eidga Maynard do Lago em 29 setembro 2012 às 19:56

    O Espírita pode e dever agir como cidadão, em sua comunidade, exercendo seus direitos e deveres pertinentes a sua cidadania. Mas, a idéia de um “Partido Espírita” não me parece condizente com os preceitos doutrinários. Não acho pertinente.

  3. Comentário de Adão de Araujo em 29 setembro 2012 às 20:05

    Penso que o ideal seria elegermos candidatos identificados com as idéias espíritas. Porém, certa ocasião, por volta de 1994, decidi apoiar um candidato, companheiro espírita idôneo a profundamente identificado com as idéias espíritas, bem como recomendá-lo aos demais companheiros espíritas. Foi um “Deus nos acuda”! Recebi correspondências até de um dirigente de entidade federativa me excomungando. Falaram que eu estava obsediado: “Vade retro satanás”! “Onde se viu um espírita”, disseram, “se envolver com política e ainda por cima fazer propaganda”. Me pediram que redigisse uma correspondência retratando-me do pedido de apoio ao companheiro candidato.

    Botei minha violinha no saco e nunca mais sugeri a alguém votar em espíritas.

  4. Comentário de Janette Tavares em 29 setembro 2012 às 21:19

    Interessante os comentários. Também concordo que não se deve relacionar religiosidade com politica. Gostaria muito que tivesse um politico com espirito elevado para que nosso Pais evoluísse ao invés de caminhar na ganancia, e na desonestidade. Enfim, só nos resta criar em nossas mentes dias melhores para nossos filhos e netos, e fazer a caridade por menor que seja. Estou iniciando agora no mundo espiritual, lendo aprendendo, indo à palestras. Enfim estou adorando este envolvimento. Abraços a todos.

    1. Comentário de Adão de Araujo em 30 setembro 2012 às 12:29

      Querida amiga Janette Tavares. Serei franco com você, se me permite. Eu não vejo incompatibilidade no fato de uma pessoa que tenha sentimento de religiosidade, ser também e ao mesmo tempo um político honesto cuja atuação esteja voltada essencialmente para a construção do bem comum.
      Já tivemos valorosos companheiros espíritas que foram excelentes políticos e que muito dignificaram o nome da Doutrina Espírita, atuando no meio político. Poderia citar um dentre muitos: Dr. Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti.
      Se você estudar a biografia do Dr. Bezerra de Menezes poderá constatar o que digo e acredito que gostará de saber que é possível, sim, ser um político honesto, incorruptível e trabalhar pela contrução de uma sociedade mais justa e mais digna.
      Gostaria de sugerir à você a leitura de dois livros interesantes: “A Constituição Divina” de Richard Simonetti; Gráfica São João e “Espiritismo e Plítica” de Aylton Guido Coimbra Paiva; Gráfica A Tribuna Santos.
      Um grande abraço, querida amiga.

  5. Comentário de Waldeque Garcia da Silva em 30 setembro 2012 às 12:53

    Desculpem se entendi errado. Mas ao meu ver o texto não sugere a constituição do um partido político. A ideia é da criação de um partido informal dentro do movimento espírita, nos moldes admitidos por Kardec, onde se possa discutir a maneira de melhor exercer a cidadania para, na medida do possível, levar até os políticos os ideais de moralidade e honestidade, sem nenhum vínculo partidário. Como cidadãos somos seres políticos e, por isso, temos que nos preocupar com a política do nosso País. E como cristãos temos que primar pelo bem-estar de todos. Assim sendo, devemos fazer o possível para melhorar a política do nosso Brasil, sem nos envolver partidariamente.

    1. Comentário de Adão de Araujo em 30 setembro 2012 às 14:27

      Alô amigo Waldeque Garcia da Silva. Concordo com você, referente ao que foi proposto por Allan Kardec. Entretanto, “os tempos” hoje são outros, politicamente falando. Por isso, acredito que podemos atuar também diretamente na política, tanto como legisladores,. quanto executivos, na busca da construção de um mundo melhor. ” O Homem deve estar no mundo sem ser do Mundo”. É bom considerar, ainda, que a política em si mesma, não é boa nem má: é neutra. A prática da política é que pode ser feita de uma forma positiva ou negativa. O envolvimento com partidos políticos, até pode ser muito útil, no meu entender. O programa dos partidos políticos, geralmente, visa o bem comum. Caberia aos espíritas, identificados com os embates políticos, ali ofertarem sua contribuição de forma direta e objetiva, inspirados no princípios éticos e morais preconizados pela Doutrina Espírita.

      Um grande abraço e votos de muita paz.

  6. Comentário de José Augusto Santiago Vieira em 8 novembro 2013 às 10:18

    Partido, instituído pelo homem para definir um agrupamento de ideologias, não pode, em nenhuma circunstancia, ser o perfil de uma Doutrina, dos Espíritos, que tem por missão plantar o AMOR como conduta da humanidade.

  7. Comentário de Joyce dos Santos em 12 julho 2014 às 20:10

    Kardec não propôs e nem o texto está propondo um partido espírita.
    Todos nós que vivemos em sociedade de uma forma ou de outra, até mesmo sem o saber nos posicionamos politicamente.
    A Doutrina Espírita nos mostra o quão solidários devemos ser e quão responsáveis devemos ser em relação ao planeta em que vivemos e aos seres que aqui encarnam e que aqui encarnarão.
    Penso que não podemos fugir à responsabilidade de participar, seja em que nível for, das decisões relativas à sociedade em que vivemos.
    Cada um dá o que tem, e nós espíritas temos muito a contribuir, pois a filosofia espírita tem uma proposta de progresso solidário.
    Na questão 932 temos:
    Por que, no mundo, a in?uência dos maus supera, com tanta frequência, a dos bons?

    “É pela fraqueza dos bons; os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos; quando estes o quiserem, tomarão a frente.”

  8. Comentário de Sergio Antonio Gomes em 16 março 2015 às 19:51

    Sou a favor ao um Partido Espirita, sem o termo kardecista, uma vez que a importância desse partido esta nos ensinamentos básicos da doutrina, e serve para qualquer facção que se diferencia do KARDECISMO. Infelizmente esse conservadorismo, esta deixando o espiritismo dividido em seus conceitos, e perdendo seu real valor para o Brasil, porque para humanidade eu não sei…

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