O Pensamento Político de Kardec

O Pensamento Político de Kardec
Escreve: Jaci Regis

     Allan Kardec viveu um dos momentos mais importantes da história política do mundo. Nascido em 1804, logo depois da Revolução Francesa e da queda de Napoleão Bonaparte, viu o restabelecimento da monarquia francesa e o lançamento do Manifesto Comunista, em 1848 , por Karl Marx e Engels, fatos que marcaram um novo período para a sociedade ocidental. Inserido na sociedade, professor e humanista, Rivail certamente não ficou alheio a essa movimentação decorrente do surgimento de ideias revolucionárias no campo social. Depois da revolução industrial que veio substituir o domínio absoluto da economia primária, isto é, do cultivo da terra, a urbanização da sociedade tomou rumos crescentes, impondo novas relações entre a força do trabalho e do capital.
  As teorias de Marx mobilizaram o operariado, com sua proposta da ditadura do proletariado, certamente utópica, mas sedutora. Foram fatores que provocaram profundas alterações na visão do emprego e do capital. Na verdade, depois de Marx a sociedade se viu obrigada a olhar o trabalho sob uma nova ótica. Na estruturação do Espiritismo, Kardec não tomou como não devia tomar partido das ideias em jogo. Ele, entretanto, elaborou todo um modelo de sociedade que, com justeza, podemos chamar de utopia kardecista.

A Utopia Kardecista

  Allan Kardec, a partir de visão espírita, viu o mundo de forma diferente. Para ele, a vida terrena era precária e a vida futura o grande eldorado, a felicidade total. Debitou como é natural, ao Espiritismo a carga de mostrar à humanidade um novo caminho. Ele acreditava que a certeza da imortalidade e a confirmação da justiça divina pelos mecanismos da reencarnação, causariam tamanho impacto que produziriam uma revolução social. “Identifique-se o homem com a vida futura e completamente mudará a sua maneira de ver, como a do indivíduo que apenas por algumas poucas horas haja de permanecer numa habitação má e que sabe que, ao sair, terá outra, magnífica, para o resto de seus dias.” (Obras Póstumas – O Egoísmo e o Orgulho).
  Sua tese está centrada no combate ao egoísmo e ao orgulho. “Uma vez que haja entrado decididamente por esse caminho, já não tendo o que os incite, o egoísmo e o orgulho se extinguirão pouco a pouco, por falta de objetivo e alimento, e todas as relações sociais se modificarão sob o fluxo da caridade e da fraternidade bem compreendidas” (idem). Kardec procurou formular sua utopia em bases racionais e realísticas. Ele pergunta: ”Poderá isso dar-se por efeito de brusca mudança? Não, seria impossível… Não pode o homem mudar instantaneamente o seu ponto de vista… ele precisa de tempo para assimilar as novas ideias… (idem)” Mas para isso é-lhe necessária à fé sem a qual permanecerá na rotina do presente, não a fé cega que foge à luz, restringe as ideias e, em consequência, alimenta o egoísmo. É-lhe necessária a fé inteligente, racional, que procura a claridade e não as trevas, que ousadamente rasga o véu dos mistérios e alarga o horizonte.” (idem)
  O fundador do Espiritismo estabelece a sociedade ideal, ou pelo menos a mais avançada dentro de premissas morais definidas, sem as quais qualquer esforço de resolver definitivamente as questões sociais é inútil. De dois povos que tenham chegado ao ápice da escala social, só poderá dizer-se o mais civilizado, na verdadeira acepção do termo, aquele em que se encontre menos egoísmo, cupidez e orgulho; em que os costumes sejam mais intelectuais e morais do que materiais; em que a inteligência possa desenvolver-se com mais liberdade; em que exista mais bondade, boa-fé, benevolência e generosidade recíprocas; em que os preconceitos de casta e de nascimento sejam menos enraizados, porque esses pré-juízos são incompatíveis com o verdadeiro amor ao próximo; em que as leis não consagrem nenhum privilégio e sejam as mesmas para o último como o primeiro; em que a justiça se exerça com o mínimo de parcialidade; em que o fraco sempre encontre apoio contra o forte; em que a vida do homem, suas crenças e suas opiniões seja melhor respeitadas; em que haja menos desgraçados; e, por fim, em que todos os homens de boa vontade estejam sempre seguros de não lhes faltar o necessário. (Lei do Progresso… 793).

UMA NOVA SOCIEDADE

  Para Kardec sua utopia seria realizada ao longo do tempo. Ele depositava sua confiança na inexorabilidade da Lei do Progresso. Por isso a ordem social “muda por si mesma, pelo poder irresistível do progresso”( O.P. -Liberdade, Igualdade, Fraternidade….) Mas ressaltou que o progresso não é uma lei inercial, mas depende do esforço, da inteligência e do descortino de lideranças esclarecidas. A humanidade progride através dos indivíduos que se melhoram pouco a pouco e se esclarecem: quando se tornam numerosos, tomam à dianteira e arrastam os outros. De tempos em tempos surgem os homens de gênio, que lhes dão um impulso; e depois, homens investidos de autoridade, instrumentos de Deus, que em alguns anos a fazem avançar de muitos séculos (L.E. Lei do Progresso… 789) Depois, na ótica kardecista, as revoluções morais, como as revoluções sociais se infiltram pouco a pouco nas ideias, germinam ao longo dos séculos e depois explodem subitamente, fazendo ruir o edifício carcomido do passado, que não se encontra mais de acordo com as necessidades novas e as novas aspirações (L.E -Lei do Progresso- 783).
  Em dois ensaios publicados em Obras Póstumas, ele expõe com clareza seu pensamento. Em Liberdade, Igualdade, Fraternidade, ele afirma que sem fraternidade, tanto a liberdade quanto à igualdade não serão possíveis. Em As Aristocracias, ele admite a necessidade de lideranças para o progresso da humanidade. E propõe, a exemplo de Platão, na República, o governo dos mais sábios e moralizados, na aristocracia intelecto-moral. O que certamente contraria a ditadura do proletariado de Marx.

A IGUALDADE

  Para o Espiritismo, além da igualdade natural, a sociedade deve procurar uma forma de relacionamento entre todos, mantendo a igualdade de direitos e deveres, considerando, contudo, as diferenças pessoais e sociais. Deus não concedeu, portanto, superioridade natural a nenhum homem, nem pelo nascimento, nem pela morte: todos são iguais diante dele. (803). Nem criou, portanto, a desigualdade das faculdades, mas permitiu que os diferentes graus de desenvolvimento se mantivessem em contato a fim de que os mais adiantados pudessem ajudar os mais atrasados a progredir. (Idem… 805) Sobre a igualdade, os pontos básicos do pensamento espírita podem ser resumidos nos seguintes:

1. A desigualdade das condições sociais não é uma lei natural, mas obra dos homens. (L.E. – Lei da Igualdade… 803).

2. Essa desigualdade desaparecerá juntamente com a predominância do orgulho e do egoísmo, restando apenas à desigualdade do mérito (idem, 806a).

3. A desigualdade das riquezas pode ter origem na desigualdade das faculdades, que dão a uns mais meios de adquirir do que a outros, mas também da astúcia e do roubo. (idem 804).

4. A igualdade absoluta das riquezas, não é possível. A diversidade das faculdades e dos caracteres se opõe a isso.

5. Os homens que creem estar nisso o remédio para os males sociais, são sistemáticos ou ambiciosos e invejosos. Não compreendem que a igualdade seria logo rompida pela própria força das circunstâncias. Combatei o egoísmo, pois essa é a vossa chaga social e não correi atrás de quimeras. Embora o comentário abaixo não possa ser tomado como uma política social, ele serve para compreender a visão básica da Doutrina sobre sociedades levar em conta unicamente a vida planetária, ele (o homem) vê apenas as desigualdades sociais do momento, que são as que o impressionam; se, porém, deitar os olhos sobre o conjunto da vida do Espírito, sobre o passado e o futuro, desde o ponto de partida até o de chegada, aquelas desigualdades somem e ele reconhece que Deus nenhuma vantagem concedeu a qualquer de seus filhos… que o que se apresenta menos adiantado do que ele na Terra pode tomar-lhe a dianteira se trabalhar mais do que ele por aperfeiçoar-se; reconhecerá, finalmente, que, nenhum chegando ao termo senão por seus esforços, o princípio da igualdade é um princípio de justiça e uma lei da Natureza, perante o qual cai o orgulho do privilégio. (Obras Póstumas-Egoísmo e Orgulho).

LIBERDADE E PROPRIEDADE

  O princípio da liberdade está na base da estrutura mental e social do homem. Sem livre arbítrio, ele seria uma máquina. Sem liberdade, não há conquista real, em qualquer termo que se tente olhar a vida. A liberdade, dissemo-lo, é filha da fraternidade e da igualdade. Falamos da liberdade legal e não da liberdade natural que de direito é imprescritível para toda a criatura humana, desde o selvagem até o civilizado. (Obras Póstumas – Liberdade, Igualdade, Fraternidade). Sobre a questão da propriedade o pensamento doutrinário pode ser sintetizado nos itens abaixo:

1. 883 – O desejo de possuir é natural. Mas quando o homem só deseja para si e para sua satisfação pessoal, é egoísmo.

2. Só é uma propriedade legítima, a que foi adquirida sem prejuízo para os outros.

3. Quanto aos limites do direito de propriedade, a Doutrina diz que – tudo o que é legitimamente adquirido é uma propriedade, mas, como já dissemos, a legislação humana é imperfeita e consagra frequentemente direitos convencionais que a justiça natural reprova. É por isso que os homens reformam suas leis à medida que o progresso se realiza e que eles compreendem melhor a justiça. O que num século parece perfeito, no século seguinte se apresenta como bárbaro.

MARX E KARDEC

  A proposta de Kardec é de uma sociedade igualitária, baseada no equilíbrio moral e na solidariedade. Por isso muitos espíritas, diante do quadro da sociedade injusta, com a desigualdade de oportunidades e de acesso aos bens e ao bem-estar, se encantaram com as ideias de Marx. O problema é que o marxismo não é apenas uma doutrina político-econômica, mas uma visão de homem e de mundo que, na essência, difere frontalmente da filosofia espírita. Enquanto o Espiritismo, na sua visão de homem e de mundo, persegue um horizonte espiritual e fundamenta sua política numa interpretação moral para a sociedade, o marxismo, é estruturalmente materialista e politicamente ditatorial.
  Ora, qualquer ditadura atenta contra a liberdade, resultando na ascensão de um grupo fechado ao poder, que se defende ferreamente, ferindo a liberdade de expressão, política e pessoal. Isso é válido para as ditaduras de direita quanto para as de esquerda. Todavia, como as propostas da esquerda são sedutoras por se posicionarem teoricamente contra as injustiças e a pobreza, a exploração capitalista e contra o pensamento burguês, criam partidários especificamente entre os intelectuais e estudantes cuja visão é extremamente crítica e pretende transformar o mundo pela revolução.

A importância decisiva da Economia

  A economia de mercado ou capitalista, o liberalismo, supostamente livre e concorrente, de uma forma ou de outra, sempre dominou as sociedades. No século passado, as críticas ao liberalismo, a partir de Marx e outros, levantou a hipótese da economia centralizada, monopolizada pelo Estado, como oposição ao capitalismo e à sociedade burguesa. Ela foi posta em prática, a partir de 19l7, pela Revolução Russa, com a coletivização da propriedade e dos bens de produção, gerando uma política econômica compatível com o projeto ideológico do regime no poder.
  As políticas econômicas se dividiram até algumas décadas atrás em três vertentes principais: o capitalismo de Estado, praticado pela União Soviética, o livre mercado nos países capitalistas e um regime social democrata, principalmente na Escandinávia, mas, comandado pela iniciativa privada. Após quase 70 anos de experiência na União Soviética, o projeto da economia socialista naufragou.
  No período atual, a economia tornou-se globalizada, pela ampla aplicação de capitais internacionais nas economias de todas as regiões do mundo. Os países emergentes e atrasados adotaram ora uma política monopolística do capital privado, ora uma intervenção direta e monopolística do Governo na área econômica, tornando-se ele mesmo gestor de empresas, ou mistura das duas. Ao Governo atribuiu-se o papel de investidor em áreas pioneiras e de interesse da segurança nacional.
  A economia mundial é nominalmente a de mercado. Contra essa política, as forças de esquerda, embora o fracasso da União Soviética insistem no capitalismo do Estado e se insurgem contra o que chamam de neoliberalismo. A base dessa insistência é que, supostamente, o povo é beneficiado porque, teoricamente, é o proprietário dos bens econômicos, através do Estado. A experiência mostrou que esse capitalismo estatal além de ineficiente, cria uma burocracia e espaço para corrupção. O fracasso dessas empresas governamentais onera o povo, pois o governo não gera riqueza, mas arrecada tributos. O que parece imprescindível é que as chamadas forças do mercado sejam monitorizadas, normatizadas e vigiadas, uma vez que na atualidade já não podem mais se tolerar os abusos e explorações da força do trabalho.

O FUTURO DA SOCIEDADE

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  O combate ao egoísmo e ao orgulho, preconizado como fatores fundamentais para uma nova sociedade, por Allan Kardec, se tornará cada vez mais imperioso. A sociedade chegará a esse patamar, como diz o fundador da Doutrina, pela força das circunstâncias. Essas mudanças, ainda que sob a pressão de fatores monetários ou de divisão de mercado, são produzidas, mesmo indiretamente, pela a ação das necessidades morais, pois teoricamente todos aspiram uma sociedade mais justa e equilibrada. Quer dizer, não será fruto de uma campanha místico-religiosa, nem de revoluções armadas, mas decorrente da necessidade de estabelecer-se regras equilibradas para o bem estar da população e para a convivência entre os povos, mormente diante da globalização total da vida terrena.
  O século 20 tem se caracterizado pelo desenvolvimento da tecnologia. Se de um lado facilita a vida, produz conforto, de outro a desocupada mão de obra, gera problemas sociais de difícil solução. A sociedade projetada por Kardec está baseada no primado do bem estar para todas às criaturas humanas. O bem estar é um desejo natural… Se este não for conquistado às expensas de alguém e se não enfraquecer vossas forças morais nem as vossas forças físicas(L.E -Lei de Conservação… 719).
  Se a civilização multiplica as necessidades também multiplica as fontes de trabalho e os meios de vida; mas é preciso convir que nesse sentido ainda muito lhe resta fazer. Quando ela tiver realizado a sua obra, ninguém poderá dizer que lhe falte o necessário, a menos que o falte por sua própria culpa. (L.E. – Lei de Conservação, 707). Não basta dizer ao homem que ele deve trabalhar, é necessário também que o que vive do seu trabalho encontre ocupação e isso nem sempre acontece. Quando a falta de trabalho se generaliza, toma as proporções de um flagelo, como a escassez. A ciência econômica procura remédio no equilíbrio entre a produção e o consumo, mas esse equilíbrio, supondo que seja possível, sofrerá sempre intermitência e durante essas fases o trabalhador tem necessidade de viver. (L.E. Lei do Trabalho, 685a.).
  O problema atual é encontrar uma solução para a questão do emprego. Mas certamente será encontrada, pois em todos os países o número de desempregados é cada vez maior, criando a perplexidade, pois sem emprego não há consumo e sem consumo não há expansão do mercado. Certamente, a solução não está na estatização da economia, provada que foi ser ineficiente, mesmo nos regimes ditatoriais, que dispõem de recursos antidemocráticos, antiéticos e desumanos de coerção e eliminação pura e simples de dissidentes e da força de trabalho excedente.
  Como filosofia moral, o Espiritismo é contra a ditadura, a coerção e a exploração do homem. Para ele, a lei do trabalho é natural, imprescindível e básica. Na sua visão de vida, a doutrina kardecista propugna pela dignidade do homem, pelo bem estar e se insurge contra a corrupção, legalizada ou não. Todavia, seria irrisório supor que ela seja contra o neoliberalismo e a favor da estatização da economia, sendo sua máxima o direito à liberdade de criar, propor, exprimir ideias e sentimentos.
  O que a Doutrina propõe é o nivelamento da conduta moral dos detentores do poder, seja econômico ou político. Não aceita um Estado com poderes sobre a pessoa, nem um Estado assistencialista que, no fundo, representa uma forma de dominação. A utopia kardecista, pode parecer romântica e idealista demais. Mas está na crista das preocupações da sociedade, das pessoas. Todos sabem que somente numa sociedade de nível moral equilibrado, será possível não apenas a distribuição da riqueza, mas a equitativa relação de direitos e deveres.


Jaci Regis é psicólogo e jornalista, editor do jornal de cultura espírita Abertura, presidente do Instituto Cultural Kardecista de Santos e autor dos livros Amor, Casamento e Família; Comportamento Espírita; Uma Nova Visão do Homem e do Mundo; A Delicada Questão do Sexo e do Amor, dentre outros.
Artigo publicado originalmente no jornal Abertura, de Santos, em julho de 1998.

Fonte Original desta Postagem

PENSE

“Pensamento Social Espírita”

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One thought on “O Pensamento Político de Kardec

  1. Comentário de ESIO LOPES em 20 setembro 2012 às 4:28

    COMPANHEIROS:
    Tenho dito a exaustão que um Espírita não deve usar o termo “Kardecismo”, porque, este é usado pelas Igrejas com a finalidade exclusíva de desmerecer a importância da Doutrina Espírita. Ele nos induz a pensar que Kardec foi o autor dos conteúdos contidos nos cinco livros básicos do Consolador prometido por Jesus, a Terceira Revelação, a Doutrina Espírita, portanto. Podemos dizer, isto sim, “Codificação Kardequiana”, mas, por questão lógica, intuitiva e de cultura Espírita, NUNCA, KARDECISMO. Por outro lado, tenho dito, também, que Espiritismo não é religião, porque, nosso Guia e Modelo, JESUS (questão 625 do “O Livro dos Espíritos”), não nos trouxe qualquer religião ou fundou qualquer uma delas, como quer nos impingir a Igreja Católica.

    Tenho dito!!!

    Esio Lopes.

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