Moradas dos Espíritos

Bem antigos são os registros de médiuns ou Espíritos que ditam particularidades sobre a vida extracorpórea, geralmente por eles preenchida por um colorido imaginativo e contaminada por um excessivo furor literário, muito impróprio à linguagem dos Espíritos superiores.
  O Sr. Emmanuel Swedenborg, pelo que se vê, anotou em seus diários uma série de descrições fantásticas, apimentadas por sua tendência verborrágica e seu calor excessivo.
  Sua obra, é claro, como era de se esperar, acumulou um número expressivo de curiosos e formou um grande círculo de adeptos.
  A experiência demonstra, contudo, que antiguidade não pode sempre ser associada à veridicidade.
  Respeitamos muitíssimo o Sr. Swedenborg e suas visões, sem dúvida, embora ambos pertençam ao período do Espiritualismo utópico e nebuloso.
  É de se espantar que em nosso tempo ainda existam espíritas habilidosos o suficiente para projetar as descrições do Sr. Swedenborg ao título de incontestáveis, uma vez que, segundo Kardec, “Swedeborg é um desses personagens mais conhecidos de nome que de fato, ao menos pelo seu vulgo.
  Suas obras, muito volumosas, e, em geral, muito abstratas, são lidas quase só pelos eruditos.
  Assim a maioria das pessoas que delas falam ficaria muito embaraçada para dizer o que ele era.
  Para uns, é um grande homem, objeto de profunda veneração, sem saberem por quê; para outros, um charlatão, um visionário, um taumaturgo.
  Como todos os homens que professam ideias contrárias à maioria, ideias que ferem certos preconceitos, ele teve ainda os contraditores.
  Se estes tivessem se limitado a refutá-lo, estariam no seu direito. Mas o facciosismo nada respeita e as mais nobres qualidades não são reconhecidas por eles, os contraditores. Swedenborg não poderia ser uma exceção.
  Sua doutrina, sem dúvida, deixa muito a desejar. Ele próprio, hoje, está longe de aprová-la em todos os pontos.
  “Entretanto, por mais refutável que seja, nem por isso deixará de ser um dos homens mais eminentes do seu século.” [KARDEC. Revista Espírita de fevereiro de 1859. Swedeborg.]
  Respeitável e homem de manifesto caráter, sim, ninguém de bom senso o duvida. Mas não podemos dizer o mesmo quanto à infalibilidade de suas opiniões, por mais absolutas que sejam.
  A codificação kardeciana afirma que “o melhor [médium] é aquele que, simpatizando somente com os bons Espíritos, tem sido o menos enganado”, assim como sentencia que, “por muito bom que [o] seja, um médium jamais é tão perfeito, que não possa ser atacado por algum lado fraco”. [KARDEC. O Livro dos Médiuns, XX, 226, 9.ª e 10.ª]
  Acertada essa questão, não voltaremos mais a ela.
  Há um importante centro de Porto Seguro (BA) que se tornou um exemplo dos núcleos que assumem uma postura extravagante e imprópria, porquanto um de seus membros, tomando-lhe o nome, veiculou no meio virtual uma série de idiossincrasias sobre colônias espirituais e particularidades muito esmiuçadas sobre tais moradias dos Espíritos.
  Mas essa não é a única investida sobre a questão.
  A Federação Espírita Brasileira, na figura do seu mais recente tradutor, ao publicar a mais recente tradução de O Livro dos Espíritos, no seu índice geral, abusa ao relacionar a palavra “colônia”, inexistente na obra, aos itens 234 a 236, que disto em absoluto não falam.
  Tais questões tratam dos mundos transitórios, sem vida física, embora materiais, que servem para a “habitação transitória para os Espíritos”. Nada mais. Nenhuma palavra na obra, portanto, em relação às colônias.
  Outro problema surge quando nomes ridículos são atribuídos às tais colônias: “Colônia das borboletas”, “Morada do Sol”, “Luz do Luar”, etc. etc. Tais nomes seriam mais ajustados para a indicação de hotéis materiais que aspiram abrigar turistas nas regiões praianas do Brasil.
  Compactuar com esses abusos é dar armas aos nossos adversários.
  Uma grave tendência sincrética de nosso movimento é absorver os elementos de outras crenças espiritualistas e, não raro, prematuros e contrários aos postulados doutrinários.
  Vimos em determinadas reuniões doutrinárias a menção à “Lei de atração”, comumente confundida com o axioma eminentemente lógico do Espiritismo:
  “Toda causa tem um efeito. Todo efeito inteligente possui um efeito inteligente. A grande da causa está na razão direta da grandeza dos efeitos que essa causa produz.”
  A Lei de atração, tão registrada reuniões “modernas”, não corresponde a este axioma. A aproximação não pode ser feita, sob pena de leviandade.
  Não discordamos, é claro, da existência dos aglomerados espirituais. A experiência histórica kardeciana prevê a existência deles em seus registros:
  “Os mundos intermediários são povoados de espíritos esperando a prova da encarnação, ou aí se preparando de novo, segundo seu grau de adiantamento. Os espíritos, nesses viveiros da vida eterna, estão agrupados e divididos em grandes tribos, uns adiante, outros em atraso no progresso […]” [SÃO LUIS. Revista Espírita. Julho de 1862. Hereditariedade Moral.
  Isso não deixa de encontrar, como se vê, consonância com a crença mais ou menos generalizada no movimento espírita sobre os mundos que se interpenetram.
  Mas daí supor que todas as narrativas sobre tais “viveiros” são dignas de crença cega e absoluta é simples temeridade.
  Emmanuel, no prefácio de Os Mensageiros, comete grave engano ao supor que André Luiz vive nos “círculos elevados do Invisível”, havendo ali, portanto, somente “vida humana sublimada”…
  Nada há em Nosso Lar de sublimado. Eventos locais pagos, prisões em calabouços, fábricas de sucos, pomares, plantações, presença atuante de animais domesticados, Espíritos contraindo matrimônio não são fatos circunstanciais que possamos atribuir aos círculos de espiritualidade sublimada.
  Tudo, portanto, em seu devido lugar. A literatura espírita está marcada por um novidadismo fantástico e fascinante.
  Resta saber, entretanto, a extensão desses delírios para que nossa digestão não seja afetada por alimentos estragados.
  Kardec desde sempre se preocupou com a atitude dos Espíritas diante das informações mediúnicas, embora essa preocupação tenha sido desprezada pelos amantes de novidades.
  O critério severo para a aferição das informações espirituais foi esquecido e amesquinhado pelos espíritas desde há muito.
  Importa questionarmos até que ponto nós optaremos pela ilusão de uma falsa fidelidade ao pensamento original de Allan Kardec e partiremos para uma intensa busca pela kardequização de nosso movimento.
  Tais objetivos jamais poderão ser efetivados sem uma devida incorporação dos valores positivos presentes na extensa obra kardeciana em nosso cotidiano.

Publicado por Edson Rocha em Maio de 2011

2 thoughts on “Moradas dos Espíritos

  1. Comentário de Rogerio de Braga Castelo Branco em 24 maio 2011 às 21:25

    Eu adorei o texto Edson. Gosto dos adjetivos dos dois primeiros parágrafos. Exagerados para que sejam notados e aceitos uma opinião do autor logo de princípio. Não difere em nada (há não ser o tempo) do texto recebido por Flammarion sobre suas ideias de seres renascidos (em corpos de matéria sutil que não seja a carne) e por consequente o neologismo ultraterrestre. Anos depois temos aí centenas de estudiosos torcendo o nariz tendo que aceitar a verdade matemática irrefutável.
    Quanto a existirem ou não esses ambientes ainda não vi argumentos que provassem definitivamente nem o sim, ou o não da situação. Só vejo pessoas perdendo amizades e tentando mostrar quem sabe mais usando a Doutrina como escudo, o que me entristece. Esse é um dos assuntos que mais me agrada e lendo e relendo, juntando fatos e anotações, só pude ver o quanto a mecânica quântica comprova tal existência, mas ainda não me dou por convencido. Quanto aos erros de Emmanuel parece-me que serão como os de Flammarion, só o tempo provará tais hipóteses.
    A menção a erros de Emmanuel me intriga ao ver a frase:

    “Compactuar com esses abusos é dar armas aos nossos adversários.”

    Desde quando a doutrina do amor e esperança se tornou uma guerra entre egos de adversários? Há mais opiniões nesse texto do que fatos, sem falar que unir textos de Swedeborg a de André Luiz mostra um interesse de comparar um ao outro para um fim pessoal. Já vi críticas mais argumentativas e felizes do que esta.

  2. Comentário de Claudio Tollin em 21 junho 2012 às 15:16

    Muito boas as argumentações aqui apresentadas! Infelizmente, como já mencionado por irmão em Kardec Online, cada qual continuará em sua posição mesmo diante de argumentos fortes. (Interessante notar que esta postura é bem contrária à de Kardec que sempre mostrou ter uma mente aberta, característica que, entre tantas outras, lhe possibilitou desempenhar sua missão).
    Tenho plena consciência da importância de se ter um referencial para permitir avaliações. No entanto temos que convir que no nível evolutivo no qual nos encontramos, o referencial que usamos pode não ser absoluto, isto é, ele ainda está sujeito às nossas interpretações pessoais e do estado de consciência de cada um.
    O próprio Kardec teve que fazer considerações sobre as interpretações do referencial conhecido como “Escrituras Sagradas”. Se assim não procedesse não haveria como conciliá-las com a Doutrina dos Espíritos. (Por exemplo, os textos que falam da Criação).
    Hoje vejo que alguns espíritas estão procedendo com os textos da Codificação da mesma forma, isto é, criando novas “Escrituras Sagradas”. Portanto sinto-me à vontade para criticar esse proceder, pois vejo neles a criação de novos obstáculos à evolução do conhecimento. A história nos mostra as consequências desastrosas advindas desta prática.
    Entendo que Kardec foi nisto um grande exemplo, pois não se deteve diante da possibilidade de ter que mudar seus conceitos. E fez ainda mais, deixou espaço para que mudanças fossem feitas sempre que novas descobertas a isso conduzissem.
    Kardec foi fiel ao que os Espíritos disseram e não publicou nada diferente como ele mesmo afirmou nas noções preliminares (prolegômenos) de O Livro dos Espíritos.
    No entanto, foram necessárias modificações importantes no Livro dos Espíritos passados apenas 3 anos da primeira edição, como dou alguns exemplos abaixo.
    E isto considerando que houve revisão antes da publicação da 1ª Edição! Será que os Espíritos Superiores estavam desatentos; será que o valor que damos às respostas dos Espíritos é incompatível com a postura que Kardec tinha diante delas; será que isto não merece um pouco mais de avaliação de nossa parte?
    Vejamos algumas destas revisões:

    a) Negação da evolução anímica:
    Veja por exemplo as respostas dadas pelos Espíritos às questões 127 e 128 da 1ª edição. Elas negam a evolução anímica. “O homem não foi jamais outro ser senão homem”. “Não, porquanto o homem tem sempre sido homem só”.
    Comparar com a resposta à Q. 607ª da 2ª edição: P – Parece, assim que a alma teria sido o princípio inteligente dos seres inferiores da criação? R – Não dissemos que tudo se encadeia na Natureza e que tende à unidade? É nesses seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco, e ensaia para a vida, como dissemos. É de certa maneira, um trabalho preparatório, como o da germinação, em seguida ao qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito.

    b) Momento da união do Espírito ao corpo:
    Outro exemplo são as respostas às questões 86, 86a e 86b: P – Em que momento a alma se une ao corpo? R – Ao nascimento; P – Antes do nascimento a criança tem uma alma? R – Não; P – Como vive então? R- Como as plantas. E Kardec então comenta: A alma ou espírito se une ao corpo no momento em que a criança vê a luz e respira. Antes do nascimento a criança só tem vida orgânica sem alma. Ela vive como as plantas, tendo apenas instinto cego de conservação, comum a todos os seres vivos.
    Comparar com as respostas às questões 136a, 344 da 2ª edição, onde fica claro que a união ocorre desde a concepção.

    c) Momento da separação entre o Espírito e o Corpo:
    1ª Edição – Q. 106: a alma escapa instantaneamente
    2ª Edição – Q. 155a: a alma se desprende gradualmente, os liames se soltam e não se rompem.
    Existem outras alterações substanciais entre estas edições que não incluirei aqui para não tornar o texto muito cansativo. Além do que já deve estar.
    Se formos fazer uma análise mais racional, veremos que não se teve o cuidado de preservar as milhares de respostas que Kardec disse ter recebido e analisado, provindas de muitos médiuns e de muitos lugares. Sabemos das duas principais médiuns Caroline e Julie Baudin (14 e 16 anos) e a Srta. Japhet. Fora isso temos as manifestações mencionadas na Revista Espírita contendo as informações passadas por aqueles espíritos que foram evocados. Muitas estão em desacordo com a DE e foram ali publicadas como objetos de estudo e análise pela Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Então, como pesquisadores, o material que temos é apenas o que foi publicado. (Salvo desinformação de minha parte).
    Outro exemplo é o que foi relatado na Revista Espírita com relação ao espírito Georges. Este espírito apesar das inúmeras revelações que faz e que poderiam até produzir um corpo doutrinário, quando relata a vida nos outros orbes poderia ser tão criticado quanto Emmanuel ou André Luiz. No entanto Kardec consultou o espírito S. Luiz sobre a classe a que pertencia e ele foi considerado por S. Luiz como um Espírito Superior. (Notar que para esta resposta de S. Luiz, Kardec não parece ter usado o CUEE).
    Parece que Kardec usava o CUEE apenas para aquilo que considerava ser o “coração”, o “âmago”, os pilares da D. Espírita. E não os assuntos “acessórios” como ele bem descreve no seu memorável discurso feito a apenas 5 meses antes do seu desencarne: http://kardeconline.com.br/profiles/blogs/kardec-e-seu-memor-vel-di
    Pois bem, isto nos leva a raciocinar que há um progresso nas revelações. Elas não são de forma alguma estáticas.
    Após Kardec, novas informações chegaram através de diferentes médiuns, de diferentes lugares e em momento também diferentes até os dias de hoje. Todas elas sujeitas à nossa análise da mesma forma que as que vieram à época de Kardec. (assim entendo pois não as considero “sagradas e intocáveis”).

    Saudações fraternas,
    Claudio Tollin

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