Jesus é o Filho do Homem? E se não for?

A percepção que temos a respeito de Jesus, reflete essencialmente a cultura cristã, a qual fomos submetidos. O Filho de Deus, ou o próprio Deus, o Messias, o Ungido, o Mestre, o Rei dos reis, O Filho de Davi, O Verbo de Deus, Aquele que existia antes da formação do Mundo, o Pão da Vida, o Médico das Almas, o Caminho, a Verdade e a Vida, enfim são muitas as definições e codinomes atribuídos ao homem de Nazaré, filho de Yussef e Miriam. Entre todas, há uma em especial que não escapou das polêmicas e principalmente das contradições que por si só a adjetivação encerra, é o título de Filho do Homem.
  A expressão carrega as tensões de um clima apocalíptico, porque todas às vezes em que ela aparece nos evangelhos como sendo de autoria de Jesus, a qualificação anuncia dias perturbadores, cheios de dor e ainda carrega a esperança de que o Fim dos Tempos está próximo e todos os “inocentes” que sofrem nas mãos dos “ímpios” terão a sua recompensa, que por sinal, vale a pena esclarecer que estes não irão simplesmente ao Paraíso, eles primeiro, herdarão a Terra. Ela será inteiramente deles e governada por um rei justo, representante de Deus e além disso, os “inocentes” terão o prazer de ver os que lhes provocaram dores, sendo lançados nas esferas infernais.
  Neste contexto, pode haver vingança melhor do que esta?
  Vejamos o que narra o Evangelho de Marcos sobre o Filho do Homem: “Naqueles dias, porém, depois daquela tribulação, o sol escurecerá a lua não dará sua claridade, as estrelas estarão caindo do céu e os poderes que estão nos céus serão abalados. E verão o Filho do Homem vindo entre nuvens com grande poder e glória… Em verdade vos digo que esta geração não passará enquanto não tiver acontecido tudo isto”. (cap. 13, vv. 24-27, 30).
  É perfeitamente clara a promessa de que tudo isto iria ocorrer e aquela geração para quem Jesus falava, presenciaria os acontecimentos. E aí, ocorreram os fatos? Ao que se sabe todo mundo morreu, Jerusalém foi destruída pelos romanos, os judeus se espalharam pelo mediterrâneo, e até hoje o mundo ainda é governado por ímpios, que por sinal foram eleitos pelos “inocentes”.
  Observe agora em Lucas e Mateus, o que dizem acerca do Filho do Homem: “Pois assim como o relâmpago parte no oriente e brilha até o poente, assim será a vinda do Filho do Homem. (…) Como nos dias de Noé, será a vinda do Filho do Homem. Com efeito, como naqueles dias que precederam o dilúvio, estavam eles comendo, bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca e não perceberam nada até que veio o dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na Vinda do Filho do Homem”. (Lucas, cap. 17, v. 24; 26-27, 30; Mateus, cap. 24, v. 27, 37-39)
  Agora, leia apenas em Mateus, “Da mesma forma que se junta o joio e se queima no fogo, assim será no fim do mundo; o Filho do Homem enviará seus anjos e eles apanharão do seu Reino todos os escândalos e os que praticam iniquidade e os lançarão na fornalha ardente. Ali haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai”. (Mateus, cap. 13, v. 40-43).
  Então, há alguma dúvida de que esta promessa não se cumpriu? Ou deveremos ficar olhando os céus, esperando o Filho do Homem para nos salvar dos ímpios? E se Jesus não foi o Filho do Homem? Ou então, se nós formos os ímpios?
  Para compreender a representação desta qualidade de Filho do Homem, como também as outras dirigidas a Jesus, é preciso desprender-se dos evangelhos e lançar-se na conjuntura social, religiosa e política da Judeia. O historiador ou o interessado no assunto, não pode construir suas teorias em crenças. Ele as compreende, apercebe-lhes a necessidade e a importância delas em cada civilização e época, mas o seu trabalho é com fatos, com documentos, mesmo que neles exista a crença, porém o seu papel não é elaborar explicações baseadas em teorias que não podem ser fundamentadas.
  No caso em questão, a expressão Filho do Homem, possui algumas explicações bem plausíveis. A primeira delas reflete a definição de filho da terra, e filho de Adão, o que mostra a maneira de pensar dos judeus àquela época. Entretanto, nas últimas décadas surgiram outras teorias interessantes e historicamente fundamentadas que não descartam a primeira, mas que a ampliam.
  Uma outra teoria propõe um embasamento histórico neste contexto. Ela fala que o Filho do Homem, expressão encontrada no livro de Daniel (cap. 7, vv. 13-14) é o resultado do movimento messiânico que estava surgindo em alguns grupos da sociedade judaica, durante os séculos I A.C. e I D.C. O pesquisador judeu, Israel knohl, esclarece que este movimento messiânico teve forte adesão entre os essênios.
  Ultimamente, em nossos estudos em torno dos Manuscritos do Mar Morto, verificamos textos apocalípticos, escatológicos e cheios de um toque messiânico, revelando a angústia e a ansiedade presentes entre os adeptos da seita. Os “Qumranitas”, como assim são chamados os autores dos textos encontrados nas cavernas de Qumran, ou mais conhecidos como essênios, acreditavam que um certo homem iria enfrentar a perseguição, a rejeição dos seus conterrâneos e que ressuscitaria depois do terceiro dia.
  Quem, portanto se encaixa neste perfil? Jesus é a resposta imediata! Entretanto, o que Israel Knohl propõe é que Jesus teve acesso a estes textos da seita e tomou para si o título de messias esperado pelos judeus, ou seja, ele quer dizer que, Jesus como um “alienado” se colocou no lugar de um messias essênio que viveu na segunda metade do século I A.C., que teve um fim trágico nos moldes descritos anteriormente e trouxe para si a responsabilidade e todo o peso de ser este messias, inspirando-se nesta tragédia, inclusive para pagar com a própria vida.
  Por que não podem ter sido os copistas que fizeram esta inclusão? Aliás, foram muitos os autores dos evangelhos, e não conforme alguns pensam que foram apenas os evangelistas. Se em outras passagens das escrituras, há inúmeros enxertos que revelam a influência de outros textos, por que o material de Qumran não pode ter influenciado os evangelhos?
  No entanto, ainda há outras informações que precisam ser expostas. O messias dos essênios carrega a representação da violência e dissimula ser amigo do rei, que pode ter sido Herodes, o Grande, guardando em seu íntimo um profundo ódio dos invasores, os romanos, e do rei dos judeus. É assim que vemos Jesus nos evangelhos? Ele representou violência e ódio?
  Um outro detalhe importante é que em todos os momentos em que Jesus fala do Filho do Homem, ele se refere na terceira pessoa. Por que ele não falou de si como o Filho do Homem? E tem mais, por que ele nunca se colocou como o Messias? A não ser já ao final dos textos de Marcos, quando ele está diante do sacerdote, mas em toda sua história de vida não admitiu e proibiu os discípulos que divulgassem que ele era. Se ele teve acesso aos Manuscritos do Mar Morto, não há provas ainda, mas até agora nada parece provar que ele resolveu ostentar um título que ele sabia não refletir sua personalidade e interesses.
  Portanto, até o presente momento, ser Filho do Homem representa uma missão escatológica, messiânica e apocalíptica. Resta então, questionar se Jesus realmente tem este perfil. E se ele não for o Filho do Homem, mas apenas o filho de Yussef e Miriam com muitos irmãos e irmãs, iremos deixar de admirá-lo por isso?

Por Liszt Rangel

Publicado por Franciene Gonçalves em Dezembro de 2014

5 thoughts on “Jesus é o Filho do Homem? E se não for?

  1. Comentário de Franciene Gonçalves em 23 dezembro 2014 às 19:42

    Concordo… Eu não sou psicóloga, mas penso que este é o maior conflito psicológico de Jesus… Sugiro dizer ao “menino” que ele é um ser humano e filho da Inteligência suprema Causa Primeira de todas as coisas. Agora O HOMEM Yehoshú’a, provavelmente sabe. Ele disse “sois Deuses…”, ou seja temos “raciocínio”, mas não falou que somos a Inteligência Suprema, porém o Espiritismo veio dar continuidade aos seus ensinamentos! Esclareço, apenas que este é o meu conceito…

  2. Comentário de Camilo Luiz Barros em 24 dezembro 2014 às 9:23

    Gostei do seu ponto de vista.
    Fico pensando exatamente nisto a algum tempo. Se Jesus realmente não for o Messias, o que ele nunca disse ser, este fato não diminui a grandeza dos ensinamentos que ele nos legou.
    O verdadeiro sentido de salvador da humanidade que ele nos legou foi o de que a nossa salvação não viria de um terceiro e sim de nós mesmos, da nossa mudança íntima.
    E por tudo isto ele ainda continua como um excelente exemplo de conduta moral.

  3. Comentário de Silverio de Oliveira em 28 dezembro 2014 às 12:30

    Advento do Espírito da Verdade

    ESPÍRITO DE VERDADE
    Paris, 1860

    5 – Venho, como outrora, entre os filhos desgarrados de Israel, trazer a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como outrora a minha palavra, deve lembrar os incrédulos que acima deles reina a verdade imutável: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinar as plantas e que levanta as ondas. Eu revelei a doutrina divina; e, como um segador, liguei em feixes o bem esparso pela humanidade, e disse: “Vinde a mim, todos vós que sofreis!”
    Mas os homens ingratos se desviaram da estrada larga e reta que conduz ao Reino de meu Pai, perdendo-se nas ásperas veredas da impiedade. Meu Pai não quer aniquilar a raça humana. Ele quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, ou seja, mortos segundo a carne, porque a morte não existe, sejais socorridos, e que não mais a voz dos profetas e dos apóstolos, mas a voz dos que se foram, faça-se ouvir para vos gritar: Crede e orai! Porque a morte é a ressurreição, e a vida é a prova escolhida, durante a qual vossas virtudes cultivadas devem crescer e desenvolver-se como o cedro.
    Homens fracos, que vos limitais às trevas de vossa inteligência, não afasteis a tocha que a clemência divina vos coloca nas mãos, para iluminar vossa rota e vos reconduzir, crianças perdidas, ao regaço de vosso Pai.
    Estou demasiado tocado de compaixão pelas vossas misérias, por vossa imensa fraqueza, para não estender a mão em socorro aos infelizes extraviados que, vendo o céu, caem nos abismos do erro. Crede, amai, meditai todas as coisas que vos são reveladas; não misturem o joio ao bom grão, as utopias com as verdades.
    Espíritas; amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo. Todas as verdades se encontram no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem humana; e eis que, de além túmulo, que acreditáveis vazios, vozes vos clamam: Irmãos! Nada perece. Jesus Cristo é o vencedor do mal; sede os vencedores da impiedade!

  4. Comentário de Franciene Gonçalves em 28 dezembro 2014 às 20:40

    Todos nós somos filhos do homem, no sentido de que temos um corpo de carne, porém o que o texto tenta explicar é que este termo “Filho do Homem”, dado a Jesus representa uma expectativa dos Judeus para denominar aquele que seria o “Messias”, então se referiam a Jesus “Filho do Homem”, queriam dizer o Messias prometido e, portanto estamos diante de mais um MITO, que desperta no inconsciente coletivo a ideia de “semideus”, ou seja “uma virgem mortal fecundada por um Deus imortal, gerando uma criança prometida para salvar a humanidade”. “É Natal… É Natal… Sino de Belém… Blá-blá-blá… Para o bem da Igreja e da burguesia também…” “Papai Noel chegou com mais uma mentirinha… Jesus Filho do Homem para as criancinhas… quem pode negar?” Mas o sentido dos Judeus afeta o inconsciente coletivo das massas e esta é mais uma manipulação messiânica!

    Quer ver como falta sentido neste termo, precisa dizer que Chico Xavier é filho do Homem? Alan Kardec é filho do Homem? Eu, você… Não tem sentido algum senão este de anunciar um messias semideus…

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