Espiritismo, Ecologia e Educação

Espiritismo, Ecologia e Educação
Escreve: Salomão Jacob Benchaya  

RESUMO

  O Espiritismo, há quase 150 anos, já enfocava a questão ecológica na Terceira Parte de “O Livro dos Espíritos”, ao tratar das Leis Morais. Ao abordar as relações do homem com o seu semelhante e com a natureza, o Espiritismo oferece uma contribuição para o entendimento das causas da crise socioambiental de nosso planeta e uma contribuição ética para as soluções desejadas, especialmente no âmbito da Educação Ambiental. O objetivo deste trabalho, “Espiritismo, Ecologia e Educação”, está centrado em analisar as causas da crise ecológica, as relações do Espiritismo com a questão ambiental e as possíveis alternativas para a preservação do Planeta.

1. PANORAMA ATUAL DA CRISE ECOLÓGICA

  “O desenvolvimento tem dois aspectos. Por um lado, é um mito global em que as sociedades industriais atingem o bem estar, reduzem as suas desigualdades extremas e proporcionam aos indivíduos o máximo de felicidade que uma sociedade pode dispensar. Por outro lado, é uma concepção redutora, em que o crescimento econômico é o motor necessário e suficiente de todos os desenvolvimentos sociais, psíquicos e morais. Esta concepção técnico-econômica ignora os problemas humanos da identidade, da comunidade, da solidariedade e da cultura. Assim, a noção de desenvolvimento continua gravemente subdesenvolvida. A noção de subdesenvolvimento é um produto pobre e abstrato da noção pobre e abstrata de desenvolvimento.”
(Edgar Morin e Anne Brigitte Kern – Terra Pátria, p.64)

  De uma reportagem recentemente publicada na revista Veja, reproduzo alguns trechos que se constituem numa amostra dos problemas ambientais que vitimam o nosso Planeta:
  “… Trata-se da formidável nuvem de poluentes que se estende do Japão ao Afeganistão, no sentido leste – oeste, e da China à Indonésia, no sentido norte – sul, abrangendo uma região da Ásia em que vive um quinto da humanidade. De tonalidade marrom e tamanho equivalente a três Brasis, essa nuvem de venenos tem 3 quilômetros de espessura e representa 1,5% da atmosfera na região. Nuvens parecidas flutuam ocasionalmente sobre os Estados Unidos e a Europa, mas nenhuma teve igual tamanho e durabilidade. A mancha foi percebida pelos satélites em órbita sete anos atrás e desde então vem sendo estudada por uma equipe de especialistas convocada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Recentemente, anunciou-se a primeira conclusão: trata-se da mais densa e ampla concentração de poluentes já detectada.
  Na lista de grandes catástrofes ecológicas, preparada pela Associação Americana para o avanço da Ciência, a nuvem asiática é comparada ao buraco de ozônio, o pesadelo que dominou o debate ambientalista na década passada. O coquetel de partículas de carbono, sulfatos e cinzas orgânicas é resultado das emissões de gases de fábricas, usinas termelétricas e escapamentos dos automóveis. Essa é, digamos, a contribuição industrial para o fenômeno.
  O crescimento econômico do sul da Ásia fez com que a poluição dobrasse nos últimos vinte anos. Mas não é só essa a única causa. A população pobre da região queima o que tiver à mão para cozinhar e se aquecer — de madeira a estrume, passando por garrafas de plástico e embalagens. Como no Brasil, a queimada é a principal ferramenta para abrir espaço para o plantio. Por causa da alta concentração de carbono, a nuvem de poluentes chega a reter 15% da luz solar. Por falta de sol, o solo está ficando mais frio e o ar, mais abafado. O ritmo das monções, o período de chuvas no sul da Ásia foi alterado, com efeito catastrófico para a agricultura. A safra de arroz colhida no inverno na Índia foi 10% menor que em anos anteriores. Estima-se que 500.000 pessoas morram somente naquele país em decorrência de problemas respiratórios causados pelo fenômeno.
  Hoje, as ameaças aos recursos naturais são ainda maiores. Florestas, peixes, água e ar limpos estão mais escassos. Duas das mais importantes fontes de biodiversidade, os recifes de coral e as florestas tropicais, foram tremendamente degradadas. As emissões de carbono, o grande responsável pelas mudanças climáticas e pelo aquecimento global, cresceram 10%. Nos Estados Unidos, que abandonaram o protocolo de Kyoto, o tratado assinado por 178 países para controlar as emissões desse gás, o salto foi de 18%.
  Quanto ao crescimento sustentado, assunto tão debatido, a coisa parece caminhar para o fiasco. Há mais de meio século, Mahatma Gandhi, o magérrimo guru da independência indiana, dizia sobre o assunto: “Que Deus jamais permita que a Índia adote a industrialização à maneira do Ocidente. A Inglaterra precisou de metade dos recursos do planeta para alcançar tal prosperidade. De quantos planetas um país grande como a Índia iria precisar?”, perguntava, perplexo, aquele que o primeiro-ministro britânico Winston Churchill chamava com menosprezo de “aquele faquir indiano”.
  Gandhi sempre foi um homem de ideias reacionárias. Queria, em todos os campos, a manutenção de estilos de vida de seu tempo. Em certas coisas, pregava o retorno ao passado. Não aceitava sequer supervisão médica nas doenças. Mas seu aviso, por mais exótico e retrógrado que pareça, encontra eco num cálculo do Fundo Mundial para a Natureza, a organização ambientalista mais conhecida pela sigla WWF. Usando estatísticas da ONU, ela concluiu que os 15% mais ricos da humanidade (o que inclui as minorias abastadas nos países pobres) consomem energia e recursos em nível tão alto que providenciar um estilo de vida comparável para o restante do mundo iria requerer os recursos de 2,6 planetas do tamanho da Terra. Essa estatística ajuda a entender o dilema existente entre desenvolvimento e prevenção ambiental. Os anos 90 foram de intenso crescimento na economia global. Perversamente, muito dessa prosperidade teve consequências desastrosas para o meio ambiente.
  Como subsídio para a reunião em Johanesburgo, a ONU divulgou um relatório sobre o impacto do atual padrão de desenvolvimento na qualidade de vida e nos recursos naturais. Veja, por meio de itens selecionados do relatório, como a questão ambiental ganhou maior volume na década passada:
  — 2,4% das florestas foram destruídas nos anos 90, uma área equivalente ao território de Mato Grosso. O desmatamento é maior na África, que perdeu 7% de sua cobertura vegetal, e na América Latina, com 5%.
  — A proporção de recifes de coral ameaçados saltou de 10% para 27%, apesar de protegidos pela Convenção da Biodiversidade.
  — O consumo global de combustíveis fósseis cresceu 10%.
  — Apenas três países ricos, Alemanha, Inglaterra e Luxemburgo, mantiveram estáveis suas emissões de carbono, o gás de efeito estufa.
  Num mundo em desequilíbrio, até a boa notícia embute riscos para o futuro. O consumo de alimentos cresceu nas últimas três décadas. Nos países em desenvolvimento, a quantidade de calorias consumidas diariamente foi de 2.100 para 2.700. Nos ricos, passou de 3 000 para 3 400. Isso exige maior quantidade de alimentos. Hoje, 11% da superfície do planeta é usada para agricultura. A Europa, os países do sul e do Leste da Ásia já usam todo o seu estoque de terra agrícola. O norte da África e a Ásia Ocidental são desertos impróprios para a lavoura. Só a América Latina e a África Subsaariana ainda tem potencial de expansão agrícola – mas novas fronteiras agrícolas significam novos avanços sobre as florestas e sobre outras áreas intocadas.
  Pela presença do homem em seu habitat, animais estão sendo extintos num ritmo cinquenta vezes mas rápido que o do trabalho seletivo da evolução natural da espécie. Metade das espécies de grandes primatas, nossos parentes mais próximos na árvore da evolução, deve desaparecer nas próximas duas décadas, se nada mais consistente for feito para salvá-los. Individualmente, as agressões citadas acima seriam absorvidas pelo ecossistema global, acostumados a desastres naturais.
  O problema é a orquestração. Sem se dar conta, 6 bilhões de seres humanos se tornaram um fardo pesado demais para o planeta. Um estudo do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), estima que o homem ultrapassou em 20% os limites de exploração que o planeta pode suportar sem se degradar. O cálculo partiu do pressuposto de que se pode explorar até 1,9 hectare por ser humano. Qualquer avanço além dessa cota nos deixaria sujeitos a catástrofes meteorológicas, como enchentes e secas, e perda de qualidade de vida para as populações futuras. Nessa conta, já estamos no vermelho, com a dívida contraída com a Mãe Natureza crescendo de forma assustadora. A média mundial de exploração é de 2,3 hectares por pessoa, contra 1,3 hectare há quarenta anos. A distribuição é desigual.
  O Brasil mantém-se na média, enquanto os países africanos usam apenas 1,4 hectare. Já a Europa e os Estados Unidos superam violentamente a marca, registrando respectivamente 5 hectares e 9,6 hectares por pessoa. Significa que estão de duas a cinco vezes além da média mundial. A estimativa é que a Terra tenha 8 bilhões de habitantes em 2025, um aumento de 30% em relação à atual população mundial. Serão bilhões de bocas a mais para serem alimentadas.
  O efeito mais terrificante por suas implicações no cotidiano das pessoas talvez seja o aquecimento global. A década de 90 foi a mais quente desde que se fizeram as primeiras medições, no fim do século 19. Uma consequência notável foram o derretimento de geleiras nos polos e o aumento de 10 centímetros no nível do mar em um século. A Terra sempre passou por ciclos naturais de aquecimento e resfriamento, da mesma forma que períodos de intensa atividade geológica lançaram à superfície quantidades colossais de gases que formavam de tempos em tempos uma espécie de bolha gasosa sobre o planeta, criando um efeito estufa natural.
  Ocorre que agora a atividade industrial está afetando de forma pouco natural o clima terrestre. No ano passado, cientistas de 99 países se reuniram em Xangai, na China, e concluíram que o fator humano no aquecimento é determinante. Desde 1750, nos primórdios da Revolução Industrial, a concentração atmosférica de carbono — o gás que impede que o calor do sol se dissipe nas camadas mais altas da atmosfera e se perca no espaço — aumentou 31%, e mais da metade desse crescimento ocorreu de 50 anos para cá. Amostras retiradas das geleiras da Antártica revelam que as concentrações atuais de carbono são as mais altas dos últimos 420.000 anos e, provavelmente, dos últimos 20 milhões de anos.
  Cerca de três quartos das emissões de carbono provocadas pelo homem nos últimos vinte anos vêm da queima de combustíveis fósseis, como a gasolina. O restante provém da queima de florestas.
  De acordo com especialistas, se o efeito estufa continuar no mesmo ritmo, a temperatura da Terra pode aumentar 5,8 graus centígrados até 2100. Algumas alterações na paisagem são atribuídas claramente ao aquecimento provocado pelo homem. A quantidade de chuvas tem aumentado no Hemisfério Norte, principalmente na forma de grandes tempestades.
  Os meteorologistas estão divididos sobre o assunto, mas muitos acham que as piores enchentes em 100 anos, que recentemente invadiram as ruas de muitas cidades na Alemanha e na República Checa, se encaixam perfeitamente no contexto das mudanças climáticas no continente. Estima-se que 30% das maiores bacias hidrográficas perderam mais da metade de sua cobertura vegetal, reduzindo a qualidade da água e aumentando os riscos de enchente. Cerca de 40% da população do planeta vive em regiões com escassez de água potável, o que limita o desenvolvimento econômico, a agricultura e os cuidados sanitários.
  Há 10 anos, embalada pela Rio92, a UNESCO, o braço cultural da ONU, publicou o que pretendia ser o corolário do futuro: “Cada geração deve deixar os recursos da água, do solo e do ar tão puros e despoluídos como quando apareceram na Terra. Cada geração deve aos seus descendentes a mesma quantidade de espécies de animais que encontrou”.
  A superexploração leva o esgotamento do solo a seu limite, um processo conhecido como desertificação. A FAO, o órgão da ONU para a agricultura, estima que 250 milhões de pessoas em mais de 100 países são afetadas pelo esgotamento do solo. Esse problema está criando um novo tipo de migrantes, pessoas que não tem mais nada a perder e estão dispostas a embarcar em navios de traficantes de pessoas e até mesmo nadar oceano afora, no desespero de achar um lugar melhor para viver.
  Apesar dessa sucessão de tragédias ambientais, não é hora de ficar apenas nas queixas. Assim como degrada o meio ambiente, o homem é perfeitamente capaz de consertá-lo. Na última década, os avanços foram localizados, mas significativos. A emissão de poluentes na atmosfera caiu 30% no Leste Europeu simplesmente por ter sido desmantelado o arcaico parque industrial do antigo bloco soviético. Com incentivo governamental, as florestas europeias cresceram 9 milhões de hectares, área equivalente à da Áustria. Mais de 10% das florestas no mundo estão atualmente sob algum tipo de proteção legal.
  No Brasil, país que durante séculos devastou florestas despreocupadamente, ocorreu uma espécie de despertar ambientalista. De acordo com pesquisas, quase a totalidade dos brasileiros é favorável à manutenção intacta da floresta amazônica. O Governo anunciou o projeto de criar 18 milhões de hectares de reservas de preservação e extrativismo sustentado, garantindo a preservação sem fechar as portas para o desenvolvimento.

2. ORIGENS DA CRISE ECOLÓGICA

  “Devemos abandonar a visão dum homem dono e senhor da natureza, não só porque conduziu a violências destrutivas e danos irreparáveis sobre a complexidade viva, mas também porque essas violências e danos retroagem de modo nocivo e violento sobre a própria esfera humana. O mito bárbaro de “conquista da natureza” longe de “humanizar” a natureza, instrumentaliza-a e degrada aquele que a degrada.”
(Edgar Morin, em “O Método: A Natureza da Natureza”).

  A crise ecológica é sintoma da cultura ocidental; daí a necessidade de investigar os valores e a ética subjacentes a ela. Associa-se ao paradigma até agora vigente em nossa civilização.
  A espécie humana parece ter-se inspirado na Bíblia para objetificar a Natureza. No Gênesis, Deus teria dito: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra.” Ou “… ocupai e subjugai a terra, dominai sobre os peixes, sobre os pássaros e sobre todos os animais…”. Nessa visão teológica, o homem domina, subjuga. E se pode fazê-lo com relação aos animais, por que não em relação ao semelhante?
  Associado a isso, também contribuiu para a degradação ambiental o antropocentrismo, doutrina finalística que admite que todas as coisas foram criadas por Deus para propiciar a vida humana, que considera o homem como centro ou a medida do Universo, sendo-lhe, por isso, destinadas todas as coisas.
  O racionalismo cartesiano e o mecanicismo newtoniano, por sua vez, ofereceram uma concepção de natureza como mecanismo. Dentro de um esquema mecânico, o todo é composto por partes e, conhecendo-se as partes, o todo seria também conhecido. Sobre essa visão reducionista, analítica, fragmentadora, afirma Fritjof Capra: “A divisão entre espírito e matéria levou à concepção do Universo como um sistema mecânico que consiste em objetos separados, os quais, por sua vez, foram reduzidos a seus componentes materiais fundamentais. Essa concepção cartesiana da natureza foi, além disso, estendida aos organismos vivos, consideradas máquinas construídas, de peças separadas.” (“O Ponto de Mutação”, tópico I, Crise e Transformação).
  A revolução científica e industrial acarretou o crescimento desordenado dos núcleos urbanos com a migração de contingentes populacionais com o consequente agravamento de problemas sanitários. A produção industrial gerou o acúmulo de riquezas nas mãos de poucos e a sede pelo lucro multiplicou a devastação de recursos naturais empregados como insumos na elaboração de uma gama inesgotável de novos e mais sofisticados produtos. Houve o recalque dos saberes locais, sustentáveis, sabedorias, tradições, no afã pelo novo tecnológico com desprezo pelo antigo. A educação tornou-se objetificadora, legitimando o paradigma industrial capitalista, na busca da formação de mão-de-obra para o mercado.
  A poluição do ar, do solo e da água tem nas indústrias e no uso de seus produtos, a sua maior fonte geradora. O consumismo exacerbado é outra poderosa fonte de agressão ao meio ambiente. Em nome do conforto da civilização e do avanço tecnológico, a cada dia novos produtos são lançados no mercado, necessitando serem vendidos, para tanto buscando seduzir potenciais compradores, por sua vez, sempre ávidos por novidades muitas vezes inacessíveis às suas posses. Uma espiral avassaladora produzindo frustrações e infelicidade, de um lado, e desperdício e depredação de outro. Sem considerar os efeitos predatórios à natureza e à saúde, ocasionados pelo acúmulo de lixo gerado pelo ser humano.
  Como ser inteligente, o homem age sobre a Natureza e se sujeita, com isso, às consequências dos seus atos geradores de destruição e morte. Reconhecendo-se um ser superior da Criação, o homem tem adotado uma postura arrogante e predatória em relação à Natureza. Embevecido com o avanço científico e com a riqueza gerada pela revolução industrial, desenvolveu uma crença cega no progresso e fundamentou sua felicidade num modelo de desenvolvimento que estimula a competição ao invés da solidariedade.
  Em nossa civilização o ser humano assumiu um papel de superioridade e excelência que o levou a adotar um comportamento arrogante e exploratório em relação ao seu semelhante e à Natureza.
  Elizabet Sahtouris, ao desenvolver a hipótese Gaia no seu livro “Do Caos ao Cosmos” (Ed. Interação, São Paulo, 1991), afirma que “paradoxalmente, a separação da natureza que nos impusemos pela visão mecanicista e “objetiva” do mundo conduziu-nos, nos últimos milênios, ao conhecimento científico que possibilitou entender e reintegrar-nos na auto-organização da natureza”. A Hipótese Gaia, já considerada uma teoria científica, foi desenvolvida no final dos anos 60 pelo cientista inglês James Lovelock e pela bióloga norte-americana Lynn Margulis. Ela sustenta que o planeta Terra é, na verdade, um grande organismo, um ser vivo, único e autorregulável. Segundo essa visão, a consciência está presente em toda a matéria. Várias tradições esotéricas vêm a Terra de modo semelhante. Rosacruzes, teosofistas e antroposofistas atribuem ao planeta um corpo etérico, campo de energias vegetativas e da fertilidade; um corpo astral, com o qual ela sente e experimenta; e um corpo mental, onde se manifesta a “inteligência planetária”.
  Na visão budista, tudo contém ou é interpenetrado por todas as demais coisas. Helena Blavatsky, fundadora da Teosofia, diz que cada um de nós se inter-relaciona com a totalidade das coisas, contendo-as em sua essência. Diz o chefe Seattle, cacique dos Duwamish, em seu discurso ao governador do território de Washington, Isaac Stevens, a propósito da compra de suas terras, em 1856: “A Terra não pertence ao homem. É o homem que pertence à Terra. Disto temos certeza. Tudo está relacionado entre si. O que fere a Terra fere também os filhos e filhas da Terra. Não foi o homem que teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que fizer à trama, a si mesmo fará.”
  Em toda a natureza podem ser encontrados níveis de organização, nos quais seres maiores são constituídos de seres progressivamente menores, com todos os níveis interpenetrando-se e relacionando-se de todas as formas possíveis, vinculados em um todo integrado. Este conceito de interpenetração, de conexão universal, encontrado na religião oriental e na filosofia esotérica, tem repercussões na perspectiva moderna denominada holismo. Essa ideia é sintetizada, na Doutrina Espírita, na seguinte frase extraída da questão 540, de “O Livro dos Espíritos”, escrita em 1857: “É assim que tudo serve, que tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo, até o arcanjo, que também começou por ser átomo. Admirável lei de harmonia, que o vosso acanhado espírito ainda não pode apreender em seu conjunto”.
  O holismo não é uma teoria bem definida, mas constitui uma visão unificada, em níveis variados, que integra harmoniosamente muitas colocações centrais em uma visão global de unidade. Enfatiza a interdependência e natureza dinâmica dos sistemas, e aponta para paralelos, conexões e unidades subjacentes.
  A partir dessa perspectiva, vemos toda a natureza consistindo de todos que se interligam. Um organismo — uma árvore, ou camundongo ou pessoa — consiste de estruturas complexas que são constituídas por unidades completas. Os átomos de qualquer corpo são integrais, coerentes, independentes até certo grau. Unem-se para compor moléculas, por sua vez também completas e integrais. Estas se organizam nas organelas (corpos microscópicos dentro das células), que por sua vez organizam-se em células, as células em tecidos, depois órgãos, depois os sistemas que compõem o organismo biológico. Cada nível dos todos é constituído por todos os menores e, ao mesmo tempo, serve como parte de todos os maiores. Elas compõem níveis, desde o simples ao altamente complexo, estando cada nível conectado e inter-relacionado com todos os demais níveis, compondo estruturas de níveis múltiplos, sistemas dentro de sistemas.
  Esse processo de progressiva integração não para no nível biológico. Organismos fazem parte de um todo social; as coisas vivas pertencem a famílias, comunidades, populações. Os seres humanos e outros animais sociais compõem grupos organizados – colônias, escolas, organizações comerciais, comunidades de todos os tamanhos e espécies. Teilhard de Chardin, paleontólogo jesuíta, estava profundamente convencido tanto pela ciência como pela filosofia de que o universo é um todo, algo inteiro. Vislumbrou-o como uma espécie de átomo gigante que não pode ser fracionado: “Quanto mais distante e profundamente penetramos a matéria, através de métodos progressivamente mais poderosos, mais somos confundidos pela interdependência de suas partes. Cada elemento do cosmos foi positivamente tecido por todos os demais… É impossível cortar esta teia para isolar uma parte sem que ela fique desemaranhada e rasgada em todas as suas extremidades.”
  Esta visão da realidade é fundamental para a formação de uma consciência ecológica e embasamento para a Educação Ambiental.

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3. EDUCAÇÃO: ALTERNATIVA PARA A SAÍDA DA CRISE AMBIENTAL

  “Tecer considerações éticas sobre o meio ambiente, sobre a Terra, não é apenas mais um item a ser acrescido a um currículo. Daqui pra frente, uma educação, que não seja ambiental, não é educação de modo algum”
(Rolston, 1992)

  A crise ambiental não diz respeito apenas a questões ecológicas, mas tem suas causas também ligadas a direitos humanos, desenvolvimento econômico, educação e justiça social, entre outras. Conferências, seminários e congressos já foram realizados para tratar especificamente dessas questões, revelando a preocupação e o esforço no sentido de combater a injustiça social e de construir um contexto sócio-político-econômico favorável ao bem estar e a felicidade dos homens, além de estabelecer metas a serem alcançadas, objetivando reverter os índices de agressão ao meio ambiente ao nível de sustentabilidade.
  Torna-se evidente que é através da Educação que se poderá direcionar o comportamento do homem para uma mudança de padrões e estilos de vida, a fim de que adquira uma postura de empatia e solidariedade para com os problemas do planeta e de sua população. Desta forma, a Educação Ambiental passa a ser campo de ação pedagógica. Neste aspecto, se destaca o pioneirismo da Doutrina Espírita no trato das questões socioambientais na Terceira Parte de “O Livro dos Espíritos”.
  A Educação Ambiental é a tematização e transformação dos valores do nosso agir em relação à vida. À luz do pensamento espírita, as leis humanas, a organização social e a educação tem sido estimuladoras do egoísmo, fonte das mazelas sociais e ecológicas. Somente o desenvolvimento de atitudes amorosas, solidárias, de empatia e de alteridade nas relações do homem com o seu semelhante e com a natureza poderá deter o ritmo da degradação ambiental.
  Pode-se entender por Educação Ambiental as ações práticas e as relações responsáveis e harmoniosas com o meio ambiente, de maneira a garantir a perpetuação e a manutenção de todos os seres vivos da Terra dentro de padrões dignos de qualidade de vida. A partir dessa concepção, tornar-se-ia viável a ideia de um desenvolvimento sustentável, aqui entendido como “o desenvolvimento social, econômico e cultural que atende às exigências do presente sem comprometer as necessidades das gerações futuras”.
  Parafraseando um conhecido educador dos anos 60, Afro do Amaral Fontoura, que dizia que a educação dos filhos deveria começar 20 anos antes de eles nascerem — ou seja, com a educação de seus pais — posso afirmar que o êxito da Educação Ambiental só estará garantido se ela atingir, de imediato, governantes, administradores, educadores, empresários e políticos de hoje, pois que poderá não haver tempo de esperar que somente as novas gerações assumam uma postura menos agressiva para com o planeta que nos abriga.
  A afirmativa de que “uma educação que não seja ambiental, não é educação de modo algum” precisa ser refletida e discutida em todos os centros de formação de professores e de pedagogos, visto que Educação Ambiental não é uma disciplina a mais no currículo de ensino. Faz-se mister que nos preocupemos com uma Ética Ambiental que propicie mudanças em nossos códigos valorativos e a inserção da sociedade em um novo paradigma.

  Podemos citar como objetivos da Educação Ambiental:
  — A conscientização e a sensibilização de pessoas e grupos com relação aos problemas ambientais;
  — O comprometimento dos indivíduos e das instituições para com os esforços em prol da preservação do meio ambiente;
  — A melhoria na qualidade de vida da população como resultante da execução de projetos coletivos e participativos.

  Um programa de Educação Ambiental, para ter êxito, precisa propiciar o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes voltados para a preservação do meio ambiente. Os resultados da Educação Ambiental se farão sentir na mudança de hábitos pessoais, atitudes de responsabilidade social, cidadania, adoção de legislação e políticas preservacionistas, projetos governamentais e não-governamentais, enfim, num engajamento solidário e consciente de todas as forças da sociedade.

4. A RESPONSABILIDADE DOS ESPÍRITAS

  “Quando bem compreendido, se houver identificado com os costumes e as crenças, o Espiritismo transformará os hábitos, os usos, as relações sociais.” – LE, 917

  Lamentavelmente, reina no movimento espírita a cultura da “reforma íntima” que, semelhantemente a algumas religiões orientais, prioriza a iluminação individualista raciocinando que, se o indivíduo se reforma, a sociedade também se modificará. Essa é uma concepção altamente deformada, visto que ainda reflexo do egoísmo humano. É agindo no social, que, na verdade, o homem se aprimora, dentro da máxima de Jesus de “fazermos ao outro o que desejamos que nos seja feito”.
  Assim, a Instituição espírita é, também, responsável e precisa estar engajada na formação de uma mentalidade preservacionista. Sua atuação deverá estender-se além das aulas de cuidados com as plantas e com os animais dadas às crianças. A reflexão gerada nos estudos das Leis Morais de “O Livro dos Espíritos” deverá conduzir os integrantes da Casa Espírita a uma consciente ação social e política para mudança da sociedade.
  Nesse sentido, é falsa a afirmativa de que o centro espírita deve cuidar das coisas do Espírito e não se envolver em questões políticas. A ação social largamente preconizada, mas limitada à “caridade material”, expressa na distribuição de alimentos e roupas (oferecimento do peixe) mas que não ajuda o “assistido” a resolver seus problemas (ensinar a pescar), que alivia a consciência dos dedicados trabalhadores dessa área, parece perpetuar a miséria como uma escada simbólica a ser galgada pelos caridosos samaritanos. Isso faz lembrar uma expressão irônica que ouvi do assistente social Mário da Costa Barbosa, já desencarnado, com quem atuei no movimento espírita do Pará: “Os pobres são a ponte que pisamos em nossa travessia em direção a Deus”.
  No trabalho “Ecologia e Espiritismo”, que apresentei na XIII Conferência Regional Espírita Pan-Americana, em 1998, em Maracay, Venezuela, sugeri algumas maneiras de participação dos espíritas e das casas espíritas no movimento ambientalista, da mesma forma que se engajam nos movimentos e campanhas em defesa da vida, contra o aborto, contra a pena de morte etc. Permito-me reproduzi-las:
  — Conhecer, participar e apoiar as iniciativas governamentais ou de organizações não-governamentais (ONGs) relacionadas com a proteção ao meio ambiente;
  — Ser um protetor da Natureza e um educador ecológico junto à comunidade (família, condomínio, empresa, escola, clube, partido político, etc.);
  — Como eleitor, considerar, na sua escolha, candidatos efetivamente comprometidos com a defesa ambiental, e exercer pressão política junto aos parlamentares para a implementação de políticas e estabelecimento de legislação preservacionista do meio ambiente;
  — Promover, nas instituições espíritas, o debate em torno da Ecologia, com a participação de especialistas, patrocinar cursos sobre essa temática e incluí-la nos programas de estudo doutrinário, inclusive os destinados à infância e à juventude;
  — Participar ou promover campanhas de proteção ambiental ou de formação de consciência ecológica; por exemplo: recolhimento de embalagens de alumínio e plástico, jornais, etc., para venda às indústrias de reciclagem; distribuição de sementes para o plantio de árvores, preparação de hortas e ajardinamento de áreas disponíveis nos centros espíritas, empresas ou em residências.
  Uma das conclusões dessa Conferência, que integra o texto da Declaração Final de Maracay, assim está expressa: “El Espiritismo aboga en favor de la defensa del planeta, de su flora y de su fauna y por el respeto al equilibrio ecológico, recordando que la conservación ambiental es compromiso de todo ser humano y no tarea exclusiva de los gobiernos.”




Fonte: Trabalho apresentado na XIV Conferência Regional Espírita, realizada em São Paulo, capital, de 14 a 17 de setembro de 2002. O evento foi promovido pela Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA).
Salomão Benchaya, economista, diretor do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, secretário-geral da CEPA e ex-presidente da Federação Espírita do Rio Grande do Sul, foi autor do Projeto Kardequizar e coordenador da Campanha de Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, em 1978. Escreveu a obra “Da Religião Espírita ao Laicismo: A Trajetória do CCEPA” e organizou o livro “A CEPA e a Atualização do Espiritismo”, vários autores.
E-mail: sjbenchaya@gmail.com

http://viasantos.com/pense/arquivo/1305.html

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