Cristianismo X Espiritismo

Cristianismo x Espiritismo
Escreve: Eugenio Lara

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  As relações entre Cristianismo e Espiritismo sempre despertaram controvérsias históricas, desde que este surgiu na França, em 1857. Até hoje, espíritas cristãos, religiosos não se entendem com espíritas laicos e livres-pensadores. Ora, será que o fundador do Espiritismo, Allan Kardec, imaginava os conflitos, cisões e o descompasso que haveria entre os espíritas devido a essas controvérsias? Quais motivos o levaram a interpretar o Cristianismo sob a ótica espírita?
  Na “Revista Espírita”, amiúde, Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo, expresso no preâmbulo de “O Que é o Espiritismo” (1860). Até o lançamento de “O Livro dos Médiuns” (1861), é coerente com essa definição, de que o verdadeiro caráter do Espiritismo é o de uma ciência, jamais o de uma religião.
  No entanto, a partir do lançamento de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” (1864), sem deixar de sustentar o Espiritismo como ciência de observação, ele dedica-se à leitura hermenêutica e exegética dos evangelhos canônicos e vincula historicamente o Espiritismo à teologia judaico-cristã, colocando-o como a Terceira Revelação, o Consolador Prometido, o Espírito de Verdade que Jesus Cristo prometera enviar após a “Ascensão aos céus”. Kardec chega a admitir, sutilmente, que O Espírito de Verdade seria o próprio Cristo, contrariando o que afirmara em “Instruções Práticas Sobre as Manifestações Espíritas” (1858), quando revelou que esse espírito teria sido um grande filósofo da Antiguidade.
  Não há como negar, portanto, a vinculação do Espiritismo ao Cristianismo, a começar pela terminologia adotada. A tal “questão religiosa” nasce com a Igreja e Roustaing, mas é reafirmada pelo próprio Kardec por sua adesão ao Cristianismo, mesmo tendo negado que o Espiritismo fosse religião em várias oportunidades, principalmente no famoso Discurso de Abertura (1868).
  Muitas são as interpretações da postura de Kardec. Há quem imagine que ele fundou uma espécie de Neocristianismo, um Cristianismo em novo formato. Outros entendem que ele fez concessão à Igreja ao escrever aquela série de obras após “O Livro dos Médiuns”. Para muitos, o Espiritismo é a revivescência do Cristianismo, o Cristianismo redivivo.


CONTEXTO HISTÓRICO

  Ora, não houve concessão alguma ao Cristianismo, à Igreja, senão o comportamento de Kardec em relação à pressão dos cristãos teria sido outro. Ele não era um sujeito frouxo, inseguro. Basta ver a polêmica que trava com o Abade Chesnel. Por outro lado, é equivocada a tese de que Kardec queria fazer do Espiritismo uma forma arrojada e sofisticada de Cristianismo, de que ele, sem querer querendo, fundou uma nova religião cristã. Essa leitura seria correta, por exemplo, em relação ao Espiritismo Cristão, de Jean-Baptiste Roustaing e à Igreja Mórmon, de Joseph Smith, mas nunca em relação à Doutrina Kardecista. E além do mais, o Espiritismo não adota a Bíblia como a palavra de Deus, sustentáculo da doutrina cristã. Esse fato, por si só, exclui a Doutrina Kardecista do rol das religiões cristãs. O Espiritismo não é um Cristianismo.
  Essa questão necessita ser analisada em seu contexto histórico. A atitude de Kardec representa uma resposta à demanda social e cultural de seu tempo. A partir de 1860, ele é estimulado a sair de seu gabinete, em Paris, e viajar por toda a França, Suíça, Bélgica a fim de atender aos apelos dos novos grupos espíritas que surgiam nesses países. Eram grupos formados, em boa parte, por pessoas humildes. Em sua cidade natal, Lyon, por exemplo, um polo industrial equivalente ao nosso atual ABC, Kardec deu de cara com muitos operários, gente simples, desdentada, de mãos calejadas, semianalfabeta. Isso deve ter sido algo inusitado, surpreendente para ele, acostumado a um público com outro perfil, mais elitista, bem mais sofisticado.
  A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (SPEE) era composta por integrantes da elite francesa, da nata da sociedade: intelectuais, magistrados, empresários, médicos, acadêmicos etc. Enquanto que muitos desses novos grupos periféricos possuíam um perfil mais modesto, com outras particularidades e uma influência muito tenaz do Cristianismo, porque formados por pessoas recém-saídas do catolicismo ou que ainda frequentavam a Igreja. A propósito, Kardec achava que o sujeito poderia ser espírita sem deixar de ser católico, sem deixar de ter alguma religião. Essa orientação não é gratuita.
  Os livros que escreveu, a partir de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, visam atender à necessidade de se vislumbrar, no próprio Cristianismo, elementos interpretativos fornecidos pelo Espiritismo, a partir não somente da experimentação, do empirismo no campo mediúnico, mas também em sua filosofia, na sua teoria de valores. Ele entendia, inclusive, que o Espiritismo teria a missão de oferecer à Igreja a base empírica para seus dogmas e princípios, de que ele funcionaria como elo, de religação entre a ciência e a religião.


RELIGIOSO OU RELIGIONÁRIO?

  Oportuno lembrar que no século 19, devido ao avanço econômico, da ciência e dos costumes, as religiões perdem terreno, adeptos e o poder que sempre tiveram, porque são inimigas do progresso, da modernidade e não acompanham as mudanças de seu tempo.
  O Espiritismo nasce justamente em pleno surgimento da modernidade, em meio à crise das religiões, particularmente a católica, e procura dar conta de questões onde a religião fracassou, especialmente a cristã, daí o esforço de Kardec em escrever obras que atendessem a essa demanda. Não foi nenhum tipo de concessão e nem houve intenção de se fundar uma nova religião cristã ou de instituir “A Religião”, em Espírito e Verdade.
  Outro aspecto é o fato de que o Espiritismo, apesar de definido por Kardec como filosofia espiritualista, não dialoga com boa parte da tradição filosófica ocidental. Ou seja, a conexão direta do Espiritismo não é com Espinosa, Kant, Hegel etc., mas sim com o humanismo iluminista, o espiritualismo em geral, com a tradição espiritualista francesa, com o “Spiritualism” norte-americano e inglês, com o espiritualismo filosófico (Pierre Leroux, Jean Reynaud, Ephraim Lessing etc.), com os utópicos (Fourier, Cabet, Saint-Simon). Deve-se acrescentar ainda a cultura gaulesa e bretã, céltica, pois estamos na pátria dos celtas gauleses.
  A busca do diálogo com o judaico-cristianismo surge da necessidade cultural, religiosa na França do século 19. O Cristianismo não tinha nesse país a mesma força que na Espanha (daí o Auto de Fé de Barcelona), mas era a religião hegemônica. Se Kardec não fosse homem de prestígio, se não privasse da amizade de Napoleão III e de muitos outros maçons e membros da elite francesa, se não tivesse amigos influentes, a Igreja esmagaria o Espiritismo, que teria abortado logo de início. Ela somente conseguiria seu antigo intento com o infame “Processo dos Espíritas” (1875).
  Kardec sabia que haveria divergências, cisões, por isso redigiu o Projeto 1868 e delineou rumos seguros à organização do Espiritismo como movimento social. O Período Religioso, imaginado por ele na sua prospecção cartesiana da propagação espírita, não tem o sentido de laço, de elo, de comunhão entre os espíritas. O religioso aí é no sentido religioso mesmo, sem trocadilho. É religioso com significado de culto. Senão, segundo a acepção que aplicava ao termo religião, ele deveria denominar esse período de Religionário, usando o termo religião no sentido de laço (religion). Vislumbrou que após esse Período Religioso, impregnado pelo Cristianismo, haveria outro, de transição, até o Espiritismo assumir integralmente sua vocação natural de “influência sobre a ordem social”, no Período de Regeneração Social. O escritor espírita Jaci Regis (1932-2010), muito perspicaz, chamou nos anos 1980 esse período intermediário de Espiritização. Fosse hoje, ele o chamaria de Período Pós-Cristão.
  A conexão entre Cristianismo e Espiritismo é um tema complexo, exige conhecimento histórico, de filosofia, teologia, antropologia e muitas áreas outras. Não basta somente conhecer a Kardequiana, é preciso situa-la em seu contexto histórico. Muitas polêmicas e divergências poderiam ser amainadas se os espíritas fizessem esse tipo de leitura, ao invés de ficarem garimpando na Kardequiana, aqui e ali, palavras de Allan Kardec sobre essa questão.

Eugenio Lara, arquiteto e designer gráfico, editor do site PENSE – Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense], membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc), é autor de Breve Ensaio Sobre o Humanismo Espírita e em edição digital: “Racismo e Espiritismo”; “Milenarismo e Espiritismo”; “Amélie Boudet, uma Mulher de Verdade – Ensaio Biográfico”; “Conceito Espírita de Evolução” e “Os Quatro Espíritos de Kardec”. E-mail: eugenlara@hotmail.com

8 thoughts on “Cristianismo X Espiritismo

  1. Comentário de João Nascimento Oliveira em 23 novembro 2013 às 12:30

    Em verdade Kardec muito comentou sobre a NÃO existência dos rituais, dos cultos exteriores, dos dogmatismo exacerbados no Espiritismo.
    Entretanto, quando falamos da inconveniência do aspecto religioso, na realidade estamos nos referindo, ainda que inconscientemente, aos aspectos citados acima. ou seja uma estrutura clerical. Porém, nisso não deve ser inserido a filosofia dos ensinamentos morais de Jesus. Isto é outra coisa.
    Kardec admitiu sim, o aspecto religioso do Espiritismo tendo como referência a moral cristã, tão amplamente discutida no ESE.
    As reuniões públicas com palestras, sempre que possível devem tratar de fundo moral visando a reforma íntima consubstanciada no ESE, salva se a palestra tratar de outro aspecto: Filosófico e Científico.
    Afinal, a moral ensinada pelo Cristo vai além da moral comum debatida nas universidades. Aquela versa sobre a reforma íntima, no esforço incessante para diminuir o egoísmo e expandir o altruísmo, condição única para atingir a efetiva paz social e progresso de todos.

  2. Comentário de Julio Cesar em 23 novembro 2013 às 18:12

    Avaliação
    Escreve: Krishnamurti de Carvalho Dias
    Em: Outubro de 2013

    Um pouco de realismo pragmático, de objetivismo ou objetividade, não fazem mal a ninguém, são parte da racionalidade, que só ajuda em toda e qualquer situação.
    Puxar pela razão, deixar as emoções de lado e, com a cabeça fria, os pés no chão, bem lucidamente, agir — eis uma receita que serve para tudo. Inclusive para o movimento espírita.
    Estamos diante de um fato consumado, um perfeito “já era”, aquela situação em que nossas avós diziam — “o que não tem remédio, remediado está”. O movimento espírita em sua maioria fez uma decidida opção pela religiosidade, mandando às favas tudo que Kardec disse a respeito. A minoria que não fez isso é muito pequena, não tem como e não pode sequer pretender mudar nada: trata-se de uma manifestação de livre-arbítrio de pessoas conscientes, maiores, vacinadas, que já sabem contar até dez. Por que teríamos nós que perder tempo com quem já se decidiu claramente pelo que quer? “Fi-lo porque qui-lo”.
    É a hora de entender que nada mais há a fazer. Tudo que precisava ser dito, ser informado, divulgado, colocado como argumentação e orientação, já foi feito. Vai já para uma década a campanha de revelação feita por confrades sinceros e dedicados, que não fizeram segredo nenhum e em linguagem muito clara puseram ao alcance de todo mundo a informação-bomba: para Kardec, o Espiritismo nunca foi uma religião; essa ideia foi inventada pela Igreja e Kardec combateu-a, repeliu-a.
    Não é mais hora de continuar polemizando e batalhando por nada mais: os espíritas estão divididos entre religiosos e não-religiosos e cada facção deve assumir seu próprio destino e prepara-se para seguirem assim, separados, procurando salvar apenas um relacionamento pacífico, harmonioso, solidário, entre si. Afinal, somos civilizados.
    O problema só em parte é de informação. A revelação de que Kardec não aceitava a ideia de uma “religião espírita” nunca foi secreta, reservada, sigilosa ou escondida. Esteve sempre onde está: no bojo da “Revista Espírita”, em muitos livros da Codificação. Só não topou com esses textos quem é alienado, não lê ou se lê o faz mal, pela metade, cabeceando de sono, apenas por dever, tropeçando nas palavras, sem analisar.
    Kardec foi bem claro, bem explícito: “O Espiritismo não é uma religião. Do contrário, teria culto, templos, ministros. Os fatos protestam contra essa qualificação”. “É uma doutrina filosófica que tem consequências religiosas, mas em absoluto não constituiu uma religião, pois não tem ritos, nem culto, templo e ninguém entre os adeptos tomou ou recebeu o grau de ministro ou grão ministro. A crítica é que inventou isso”.
    Então a questão não é tanto de revelar, informar, divulgar: os textos estão aí mesmo, é só acessá-los. A questão é bem outra: é de amadurecimento, é de preferência, de opção.
    A maioria esmagadora das pessoas entrou para o Espiritismo, mas não deixou ainda, efetivamente, o Espiritismo entrar na cabeça delas. Ao mesmo tempo, elas saíram das igrejas, mas não saíram ainda da religião.
    Com esse quadro, compreendemos que não dá mesmo para acontecer outra coisa senão isso que já ocorreu: quem é religioso por convicção, por limitação, não está a fim de pensar em coisa diferente disso e sente-se no Espiritismo como se estivesse em apenas “uma outra religião”.
    Pode chover Kardec na cabeça delas que não adiantará nada: um bloqueio intelectual impedirá fatalmente que pensem algo diferente do que se autolimitaram pensar e só entenderão o movimento por essa ótica autofabricada — como uma religião, a “sua religião”, a religião delas, as pessoas que assumiram isso. Isso, na verdade, bem pouca diferença faz: pensar o Espiritismo assim ou assado, pouco o afeta, realmente; ele continua essencialmente como sempre foi, tal como produzido por Kardec — como ciência e filosofia. A opinião que fazem dele tem muitíssimo pouco efeito real sobre sua natureza: durante milênios acreditou-se que o sol rodava em redor da terra e nem por isso o sol deixou de ser o que é.
    Mas há um subproduto indesejável desse fato: a predominância dos religiosos, o predomínio que eles têm, ocupando todos os espaços do movimento, gera um quadro muito claro de afastamento, barramento, impedimento de quem não pensa religiosamente. Quem não afina com a maioria vai para a cerca, numa eterna “regra-três” e desse ostracismo não se volta mais. Pode ser sócio, ser lembrado para soltar dinheiro nas listas, comprar rifas etc; mas aproveitado, considerado, convidado para cargos, chamado para colaborar, ser ouvido e cheirado — isso nunquinha.
    O espírito religioso é separatista, é exclusivista, age por banimento de quem é diferente, de quem não pensa igual, é sectarista e isso tem sido demonstrado repetitivamente, monotonamente, ao longo destes anos todos que durou — sim, pois já acabou, tornou-se fato consumado — a escalada de conquista do poder pelos religiosos.
    Em lugar de se ficar disputando espaço com quem não está a fim de ceder ou conceder nada, o que se tem de fazer é largar tudo na mão deles e retirar-se: com isso, cada instituição que optou pelo religiosismo ficará homogênea, sem oposições internas, sem dissidentes. Por outro lado, os que se retiram devem agrupar-se formando novas instituições, que nos respectivos estatutos se declararão não-religiosas, ficando homogêneas também, igualmente sem oposições e dissidências internas.

    Fonte: Espiritismo e Unificação, fevereiro/março de 1987, Ano XXXIV, nº 410/411. Periódico publicado pela Divulgação Cultural Espírita Editora (Dicesp) – Santos-SP.
    Krishnamurti de Carvalho Dias (1930-2001), escritor autodidata e orador espírita, foi um dos pioneiros no uso da multimídia para a divulgação do Espiritismo. Escreveu os livros O Laço e o Culto, Roustaing, Toques de Obsessão, A Descoberta do Espírito, Dois Ensaios, O Nascimento da Morte e dezenas de ensaios e artigos na imprensa espírita.

    1. Comentário de Franciene Gonçalves em 23 novembro 2013 às 22:37

      O Krishnamurti de Carvalho Dias diz: “O espírito religioso é separatista, é exclusivista, age por banimento de quem é diferente, de quem não pensa igual, é sectarista e isso tem sido demonstrado repetitivamente, monotonamente, ao longo destes anos todos que durou”.
      Isto só comprova o porquê, segundo Kardec, o Espiritismo não poderia ser considerado uma religião, porque o conceito da Igreja “religar o homem a Deus” separa as pessoas, conforme se tem observado, opondo-se ao conceito Grego com significado de “laço” que une todos os membros, isto se dar devido os dogmas de fé (cega) criados pelo conceito latino…

  3. Comentário de Luiz Carlos de Araújo em 24 novembro 2013 às 11:09

    Infelizmente a mensagem de Jesus fracassou e o Espiritismo “navega” no mesmo engano, quando se coloca de forma religiosa. A maioria de nossas Instituições se perderam no assistencialismo e no igrejismo. Faz-se de tudo nas casas espíritas, menos Espiritismo. Estão nelas os “donos”, os grupinhos e as disputas. Lamentável!

  4. Comentário de Joyce dos Santos em 24 novembro 2013 às 14:30

    Eu também não compartilho desse pessimismo de Krishnamurti, pelo contrário, baseada na lei natural do progresso, eu acredito que mais cedo ou mais tarde, aqueles que hoje estão em maioria; que transformaram os centros espíritas em igreja, um dia entenderão que não precisamos pertencer a uma religião para amar a Deus e trabalhar pelo progresso, desenvolvendo virtudes e vivendo em harmonia, dentro dos princípios da ética e da moral da sociedade em que vivemos.
    Kardec entendia o espiritismo como uma informação que interessa a todos, independente do grau de evolução e principalmente independente de sua crença religiosa.
    Quando Kardec, o pedagogo, em O ESE, explica, racionalmente, as passagens mais importantes do Evangelho, o que ele estava fazendo: partindo de uma informação já conhecida, trazendo novas informações esclarecedoras, desmistificando os fatos. Mas o que fazem as pessoas? se identificam com esse assunto e param por aí; não querem avançar no conhecimento. Usam O E S E como uma bíblia espírita. Os hábitos do passado gritam alto dentro deles.
    Kardec explicou, na Introdução do livro O ESE, o objetivo da obra: “O ensinamento moral, …território onde todos os cultos podem se encontrar”. Todos os cultos são iguais no tocante ao ensinamento moral.
    Observem que o ensinamento moral não é o objetivo do espiritismo e sim o objetivo do livro O ESE, e mais adiante Kardec diz: “… o essencial era colocá-lo à disposição de todos, pela explicação de passagens obscuras e o desenvolvimento de todas as consequências, com vistas a sua aplicação às diferentes situações da vida…”
    Antes ele já havia dito: “…dificuldade que a leitura do Evangelho apresenta: entendimento muito difícil para um grande número de pessoas. A forma alegórica, o misticismo intencional da linguagem fazem com que a maioria o leia por desencargo de consciência e por dever, como leem as preces, quer dizer, sem proveito.”
    A ciência espírita revela a nossa origem, destino e verdadeira essência, e aquele que bem entender o que isso significa, poderá transformar-se, e usufruir, já, da serena felicidade de saber que somos nós os únicos responsáveis pela nossa sorte.
    A resposta à pergunta 621 é: “A lei de Deus está escrita na consciência”, logo, cada um escolhe seu caminho: a pé, demora mais; de metrô, mais rápido, mais proveitoso; ou de carro, enfrentando o engarrafamento, o desgaste, a perda de tempo. Cada um, a seu tempo, do seu modo, convergirá para Deus.

  5. Comentário de Silverio de Oliveira em 1 dezembro 2013 às 11:08

    Prezados Irmãos, bom dia!
    Ora, então vejamos que nos diz Kardec!

    625. Qual o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e de modelo?
    — Vede Jesus.

    Comentário de Kardec: Jesus é para o homem o tipo de perfeição moral a que pode aspirar a Humanidade na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ele ensinou é a mais pura expressão de sua lei, porque ele estava animado do espírito divino e foi o ser mais puro que já apareceu na Terra.

    Se alguns dos que pretenderam instruir os homens na lei de Deus algumas vezes s desviaram para falsos princípios, foi por se deixarem dominar por sentimentos demasiado terrenos e por terem confundido as leis que regem as condições da vida da alma com as que regem a vida do corpo. Muitos deles apresentaram como leis divinas o que era apenas leis humanas, instruídas para servir às paixões e dominar os homens.

    UM GRANDE ABRAÇO FRATERNAL A TODOS!

  6. Comentário de Marius Roberto em 11 dezembro 2013 às 10:51

    Extrato do texto do confrade presidente da ADE RJ Sérgio Aleixo (Ensaios da Hora Extrema):

    Kardec indicou muito precisamente os fins a que deveriam chegar todos os que, superando a mera experimentação mediúnica, compreendessem “o Espiritismo filosófico”. Não coincidentemente, o primeiro desses fins é o desenvolvimento do sentimento religioso, sendo os demais a resignação em face das vicissitudes da vida e a indulgência para com todos os defeitos alheios.[7] Meu alerta ocorre porque, entre os que negam ao Espiritismo sua condição de religião, em geral estão os que, nesse ínterim, rejeitam o vínculo Espiritismo-Cristianismo, a condição cristã do verdadeiro espírita e da doutrina, sua posição espiritual de terceira revelação, a possibilidade de Jesus ser espírito puro, a necessidade da prece, a legitimidade do passe e da água magnetizada, etc. Seria preciso rasgar tudo que Kardec escreveu, que os espíritos iniciadores estabeleceram, e criar outra coisa. E não daria origem sequer a uma nova parapsicologia, que ainda assim não seria Espiritismo. Por trás disso há, na verdade, um descontentamento inconfesso com os rumos kardecianos do Espiritismo. Por que não fundam outra filosofia, ciência, ou lá o que seja? Por que ficam à sombra de Kardec?
    Se o mestre lionês evitou a palavra religião por seu sentido usual, é nesse sentido que estamos obrigados a afastá-la. Se ele a aplicou nos termos em que disso até se vangloriou, é nessa acepção em que poderemos empregá-la. Ao demais, ninguém vai hoje tirar da cabeça do povo que o Espiritismo é uma religião. Melhor explicar em que sentido o é e não o é. Trata-se de rota mais curta para conduzir os adeptos à ciência e à filosofia espírita, coisas delicadas e assaz dependentes de uma compreensão invulgar. O choque de uma negação absoluta da religião espírita, além de inoportuno, não tem base kardeciana. Espiritismo: doutrina filosófica e moral, mas nem por isso laica, por seu caráter não só moral, mas religioso. É o que se vê neste excerto de Kardec na valorosa Revista Espírita:
    É para que a crença possa penetrar nos mais humildes redutos que a mediunidade não é um privilégio; acha-se em toda parte, a fim de que todos, pobres e ricos, possam ter a consolação de se comunicar com os parentes e amigos do além-túmulo. Os espíritos não quiseram que ele fosse convencido dessa maneira, porque o barulho que isto tivesse provocado teria falseado sua própria opinião e a de seus amigos quanto ao caráter essencialmente moral e religioso do Espiritismo.[8]
    Nunca, aliás, o li tão bem explicado, o vínculo religioso da moralidade espírita, como na seguinte asserção da professora de filosofia e metodologia científica Astrid Sayegh, doutora em filosofia contemporânea pela Universidade de São Paulo:
    A razão prática, ou seja, a consciência moral não se basta, se o sujeito não for mobilizado por um impulso amoroso, por uma aspiração à transcendência, por um estado de ânimo que paute a sua conduta de forma rica e intensa. A moral sem a religiosidade é como a bússola que sequer pode ser vista sem o candeeiro. O homem que age de forma correta possui uma atitude louvável, mas o homem que age por amor torna a sua atitude sublimada. À medida que o espírito eleva-se, não lhe satisfaz agir por dever, mas sim agir pela alegria de satisfazer os anseios de sua natureza essencial: amar mais e mais, buscar a Deus infinitamente. E essa sensibilidade espiritual se aguça através do exercício da religiosidade.[9]
    A negação, sem ressalvas, de que o Espiritismo seja uma religião implica que Kardec teria cometido um erro em seu último discurso. Inadmissível! Estuda-se nos seus livros: Deus, alma, prece, penas e recompensas, vida no além, moral cristã, milagres e profecias evangélicas, etc., mas, segundo alguns, teríamos que dizer que isso não tem nada de religião. A quem essa percepção acudiria hoje? Ao cidadão médio? Ao acadêmico? Nem a um nem a outro, e também por isso é que aí estão os extremos opostos da mais completa desfiguração doutrinária: o igrejismo da F.E.B. e o laicismo da C.E.P.A.

  7. Comentário de Franciene Gonçalves em 11 dezembro 2013 às 13:08

    Talvez essas divergências espíritas com relação ao “aspecto religioso do Espiritismo”, seja inútil, porque uma pessoa adulta tem muita dificuldade de abandonar antigos conceitos e de adquirir nova consciência. É mais fácil conscientizar as crianças. Se os filhos dos espíritas começarem a dizer que Papai Noel não existe, que isso é uma fantasia desnecessária, alimentada em favor dos comerciantes e para aumentar os impostos, acredite, provavelmente são crianças mais evoluídas, chegando ao nosso planeta com missão de conscientizar os pais…

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